Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 30/03/2020

Desde o Iluminismo, entende-se que uma sociedade só progride quando um se mobiliza com o problema do outro. No entanto, quando se observa a espetacularização da violência pela mídia brasileira, verifica-se que este ideal iluminista é constatado na teoria e não desejavelmente na prática, pois a problemática persiste intrinsecamente ligada à realidade do país. Nesse sentido, convém analisar as principais consequências de tal postura negligente para a sociedade, que mescla conflitos tanto na esfera ética como na social.

Em primeiro lugar, com o advento dos meios de comunicação modernos, passou-se a ser imprescindível o uso do chamado “marketing” para divulgar produtos e ideias. Dessa forma, o que sustenta a mídia é a venda de espaços, durante sua programação, para a exposição de propagandas diversas. Reside exatamente nesta prática a importância fundamental de se ter uma boa audiência para que uma mídia progrida financeiramente. Entretanto, muitos meios de comunicação atraem seus telespectadores por meio da criação de um espetáculo baseado em notícias violentas, tal como ocorreu, recentemente, no programa Cidade Alerta, quando o apresentador noticiou para uma mãe a morte de sua filha durante um programa ao vivo, o que é algo lamentável.

Outrossim, destacam-se as raízes culturais como impulsionadoras do problema. De acordo com o sociólogo francês Émile Durkheim, o fato social é uma maneira coletiva de agir e de pensar, dotada de exterioridade, generalidade e coercitividade. Seguindo essa linha de pensamento, é possível perceber que existe, no Brasil, uma cultura baseada na romantização e naturalização da violência, fato comprovado ao analisar-se a popularidade dos famosos programas policiais. No entanto, uma análise mais profunda demonstra que grande parte da população apenas enxerga a violência como algo natural porque tiveram contato com programas violentos desde que eram crianças, o que é comprovado por Immanuel Kant em sua célebre frase: “O homem não é nada além do que a educação faz dele”.

Torna-se evidente, portanto, que ainda há entraves para garantir a solidificação de políticas que visem à construção de um mundo melhor. Destarte, o Congresso Nacional deve criar leis que coíbam a espetacularização da violência, tais como proibir a exibição deste tipo de conteúdo durante o dia, promovendo a diminuição do acesso infantil a programas violentos e a criação de outros conteúdos pela mídia. Além disso, seguindo o pensamento de Kant supracitado, cabe ao Ministério da Educação instituir, nas escolas, palestras ministradas por psicólogos que discutam a respeito da violência e de como a mídia opera para fazer proveito disto; a fim de que o tecido social se desprenda de certos tabus para que não viva a realidade das sombras, assim como na Alegoria da Caverna de Platão.