Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 03/04/2020

O filme “O Abutre” de 2014, dirigido por Dan Gilroy, retrata empresas televisivas que vão em busca de crimes sangrentos em primeira mão a fim de obter maior audiência. Similarmente no Brasil, nota-se a preferência da mídia brasileira pela repercussão de crimes violentos, que acabam por influenciar o espectador e gerar reflexos negativos dentro da sociedade brasileira. Em virtude disso, é necessário combater a espetacularização da violência pela mídia, por meio de medidas que impliquem a construção de uma sociedade sadia.

Precipuamente, em conformidade com a obra “Dialética do Esclarecimento” de Adorno e Horkheimer, que define Indústria Cultural como a utilização da mídia e dos meios de comunicação como mercadoria, as empresas midiáticas brasileiras seguem essa lógica capitalista por meio da produção de conteúdo em massa e da seletividade do conteúdo, escolhendo aquele que gera mais audiência e garante maiores lucros. A violência, por seu caráter patológico e transgressivo, é constantemente repercutida pela mídia, o que acarreta a banalização da barbárie e a formação de uma sociedade pessimista, amedrontada e passível de cometer atos violentos. Ademais, a violência acaba muitas vezes por ser admirada pela população, que se estimula a fazer justiça com as próprias mãos, desrespeitando às leis e às autoridades brasileiras.

Outrossim, a competitividade entre as emissoras, que desejam ser as primeiras a revelar a notícia, somada ao sensacionalismo das notícias, não raramente, faz com que informações falsas ou incompletas sejam transmitidas, implicando a formação de conclusões precipitadas que podem levar a atos violentos ou falsos julgamentos. A adoção de uma postura invasiva por parte do jornalista se faz também comum. Sendo assim, é dever das emissoras garantir a integridade da notícia, sem abusar de detalhes mórbidos ou de informações desnecessárias, e sem apelar para o fator sentimental. O jornalismo deve, portanto, adotar uma postura humanitária, colocando a empatia em frente ao lucro.

Por conseguinte, cabe ao Ministério Público, dentro dos limites da Constituição, estabelecer sanções com a mídia ou criar leis e órgãos reguladores que fiscalizem a maneira como são transmitidos os crimes violentos, em detrimento do respeito à vítima e a fim de garantir a sanidade da população. Tais medidas incluem também um horário definido para a transmissão desse conteúdo, para evitar que ele atinja classes etárias mais baixas. Campanhas contra a espetacularização da violência pela mídia também podem ser promovidas, enfatizando a necessidade de se analisar a notícia sob uma visão humana e real, diferente da visão banal com que eles são repercutidos, e também a necessidade de compreensão quanto ao sofrimento da vítima.