Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 31/03/2020

O filósofo francês Guy Debord descreve o espetáculo como um show, sendo aquele um conjunto de relações sociais mediadas por imagens. Nesse viés, assim como demonstrado em seu livro “Sociedade do Espetáculo”, a valorização da dimensão visual da comunicação, como instrumento de exercício do poder, está presente em diversos âmbitos da sociedade, como ocorre com a espetacularização da violência pela mídia brasileira. Dessa maneira, tem-se como consequência de tal problemática a banalização da violência, além do incentivo ao crime.

É importante ressaltar, em primeiro plano, que a ampla divulgação de crimes configura como um fator atenuante do próprio panorama. Sob esse viés, consoante ao pensamento de Hannah Arendt, a banalidade do mal é observada quando uma atitude agressiva ocorre constantemente e o indivíduo deixa de vê-la como errada. Desse modo, a sociedade torna-se espectadora de programas “policialescos”, os quais expõe assaltos, estupros e feminicídios como simples ocorrências diárias, não contemplando a sua extensa complexidade dentro da sociedade. Consequentemente, com o intuito de atrair expectadores e buscar comoção, os meios de comunicação, indubitavelmente, naturalizam não apenas a violência nas cidades brasileiras, como também a morte de seus cidadãos.

Outrossim, é lícito postular a propagação como agente incentivador a atitudes criminosas. Nessa perspectiva, de acordo com o filósofo Émile Durkheim, o suicídio altruísta é aquele fomentado por uma causa ou grupo social específico, como o praticado pelos terroristas do grupo “Al- Qaeda” no atentado aos Estados Unidos em 2001. Diante disso, ao difundir esse episódio histórico, ou qualquer outro tipo de violência, é permanente a exaltação da “causa” e da criminalidade por demonstrar que tais atitudes têm espaço na vida de todo indivíduo, afetando-os. Além disso, com a divulgação de detalhes a respeito dos crimes e dos criminosos, a mídia pode não só incentivar o crime, como também facilitar o seu trabalho, tornando, infelizmente, o Brasil mais violento e constituindo um ciclo vicioso.

Urge, portanto, a necessidade de medidas que busquem suprimir a espetacularização da violência na mídia brasileira e suas consequências. Assim, é dever do Estado, em parceria com o Instituto Gutenberg, tomar medidas para exterminar o perfil sensacionalista dos meios de comunicação, por meio da criação de leis que proíbam a divulgação contínua de episódios violentos, além de regras como não glorificar os assassinos e seus atos ou não divulgar o nome e fotos das vítimas e de seus familiares, com o objetivo de evitar a banalização e o incentivo da violência pela mídia brasileira. Por conseguinte, Hannah Arendt não mais representaria a sociedade brasileira pelo conceito da banalidade do mal devido à restrição à espetacularização da violência.