Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 01/04/2020

No filme “O Abutre”, é retratada a história de um jovem que, com dificuldades para arranjar emprego, resolve se aventurar no meio jornalístico com matérias sensacionalistas que glorificavam a violência. Recebendo validação da audiência por esse comportamento grotesco, o rapaz consegue gradativamente sucesso e seguidas promoções na carreira. Fora da película, é fato que, em busca de audiência, a espetacularização da violência é recorrente na mídia brasileira, o que se apresenta como um grave problema, uma vez que traz como consequências o desenvolvimento de indivíduos mais violentos e a sensação de insegurança exagerada.

Deve-se pontuar, de início, que o desenvolvimento de indivíduos mais violentos é uma grave consequência que demonstra a complexidade do problema. Segundo as ideias do sociólogo Habermas, os meios de comunicação são fundamentais para a razão comunicativa. Contudo, deve-se diferenciar o trabalho jornalístico e o sensacionalismo. Nesse contexto, destaca-se o caso dos jovens que invadiram e assassinaram várias pessoas na escola em Suzano, em que investigações posteriores acerca da vida dos meninos mostraram que eles admiravam outros atentados semelhantes que foram amplamente explorados pela mídia em busca de audiência.

Além disso, cabe ressaltar que a sensação de insegurança exagerada, decorrente da espetacularização da violência, é outra consequência danosa à sociedade. Conforme dados do IBGE de 2019, a maioria dos brasileiros sente-se insegura de sair nas ruas. Assim, políticos populistas veem nesse medo terra fértil para discursos fáceis, que encontram numa população fragilizada e com medo o público alvo perfeito de suas propagandas. Na outra mão, a imprensa lucra com a propagação do medo, uma vez que movidos por essa emoção somos impulsionados, enquanto indivíduos, a consumir cada vez mais esse tipo de conteúdo. Portanto, o que se observa é a normalização da barbárie em programas televisivos que se dedicam exclusivamente a propagar notícias sobre violência.

Torna-se imperativo, então, desenvolver medidas que ajam sobre o problema apresentado.  Para que isso ocorra, a Secretaria Especial da Cultura em parceria do Governo Federal, deve fomentar, com recursos financeiros que venham de uma reformulação da Lei Rouanet, a produção de conteúdo educacional e informativo e, como contrapartida, exigir que as diversas mídias criem formas de controle de conteúdo por faixa etária a fim de que crianças não sejam expostas a conteúdos que sejam violentos. Dessa maneira, é possível que a espetacularização da violência pela mídia e os abutres  que a exploram fiquem no passado brasileiro.