Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 03/04/2020

O filme “O Abutre” trata sobre a realidade norte americana de jornalistas acompanham tragédias para serem veiculadas nos canais sensacionalistas, posto que assim mantêm a audiência elevada, fornece lucros e agrada os telespectadores com o entretenimento que desejam assistir. Apesar de estar longe de ser um problema somente dos EUA, a espetacularização da violência pela mídia brasileira é, hodiernamente, um grave empecilho ao desenvolvimento da sociedade, posto que a banalização de crimes, em consonância com a descrença da população em relação à eficiência da justiça, gera a permanente sensação de insegurança.

Em primeiro lugar, é preciso compreender que o problema dessa prática é que são ignorados os sentimentos das pessoas envolvidas. Revelam-se os corpos das vítimas, acompanham-se casos policiais, mostrados em nível nacional e, com isso, coloca-se os criminosos em posição de protagonistas. Como exemplo, o programa Cidade Alerta repercutiu após uma mãe desfalecer ao vivo após ouvir do próprio apresentador que sua filha desaparecida foi morta pelo namorado, o qual não só confessou o homicídio como revelou onde aconteceu. A banalização da violência, portanto, espetaculariza, inclusive, o sofrimento humano e demonstra completa ausência de empatia, uma vez que esses programas são assistidos por causa do mistério e feitos pelo dinheiro, ignorando o que os crimes podem significar à integridade da vítima ou da família.

Em segunda instância, esse sensacionalismo acarreta a noção de que a segurança pública é ineficiente, o que promove ideais justiceiros. Por exemplo, a defesa da permissão do armamento pessoal foi um dos principais motivos pelo qual Jair Bolsonaro foi eleito à presidência. Isso mostra como as contínuas notícias de violência urbana impactam a opinião dos brasileiros, visto que acreditam na incompetência do Estado em garantir a segurança e encontram, na liberação de armas, a melhor forma para se manter protegido. Consequentemente, a espetacularização da violência prejudica a estabilidade da justiça no país, posto que armar os indivíduos é retirar essa responsabilidade dos órgãos especializados e transferi-la para o âmbito privado.

É necessário, destarte, que os Ministérios das Comunicações e da Justiça se unam em um projeto de lei contra a espetacularização da violência no Brasil. Para isso, noticiários policialescos precisam ser monitorados - por meio do controle Federal da reprodução das imagens dos envolvidos e do impedimento da gravação  dos casos ao vivo - para que não divulguem crimes como se fossem filmes de mistério e ação. Sem a contínua reprodução da violência de forma extraordinária, a imprensa deixará de ser um abutre, para se tornar mais responsável em relação ao seu papel na sociedade.