Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 22/04/2020

Espetáculo da realidade

Na Roma Antiga, a política do pão e circo foi utilizada para entreter a população. Desse modo, o Coliseu era o principal lugar de disputas sanguinárias entre gladiadores. Paralelamente, na atualidade, a mídia é o local em que a violência é exibida. Todavia, esse meio de comunicação faz, muitas vezes, o uso do sensacionalismo, em que os assuntos são exibidos de modo exagerado, a fim de aumentar a audiência. Contudo, essa constante espetacularização da violência pode trazer consequências negativas.

De acordo com Augusto Cury, o fenômeno da psicoadaptação é a capacidade humana de se adaptar às emoções de prazer ou de dor diante da exposição repetida a um mesmo assunto. Consoante a essa ideia, pode-se dizer que a constante exposição a notícias violentas pode levar ao desenvolvimento de certa apatia a tal circunstância. Ademais, segundo o sociólogo Bauman, a modernidade líquida vigora na sociedade hodierna, ou seja, as instituições, as ideias e as relações estabelecidas entre as pessoas se transformam de maneira muito rápida, tendo como consequência a substituição da coletividade pelo individualismo.

Conforme essa ideia, pode-se dizer que, apesar da mídia expor a todo instante notícias sobre a violência, tal fato torna-se, praticamente, igual à Roma Antiga: um mero entretenimento. Assim, o jornalismo passa não somente a ter a função de informar, mas também,  a noção de espetáculo e, na maioria das vezes, passa a engrandecer conteúdos, estimulando falsas verdades. Assim é possível correlacionar o fato social, que é um conjunto de normas as quais exercem poder coercitivo sobre o indivíduo-ideia defendida pelo sociólogo Durkheim- a esses fatos noticiados, os quais geram a naturalização da informação.

Diante dos fatos supracitados, entende-se, portanto, que, na atualidade, assim como na Roma Antiga, a violência, ainda, é tratada como uma noção de espetáculo e, diante da volatilidade da sociedade coetânea, há cada vez menos uma preocupação com o coletivo. Desse modo, primeiramente, é necessário uma conscientização das redes televisivas sobre a notícia a ser exibida, evitando-se o uso do sensacionalismo. Além disso, a formulação de leis pelo Congresso Nacional, as quais impeçam a circulação de reportagens apelativas, punindo as emissoras por emitir tal conteúdo de modo irresponsável. Por fim, é papel dos pais conscientizarem seus filhos na seletividade do conteúdo a ser assistido, a fim de não se naturalizar com a visualização da violência. Desse modo, aos poucos, a espetacularização da violência passa a ser combatida.