Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 22/04/2020
O “@tododiabrigas”, no “Twitter”, é um perfil brasileiro que tem como único objetivo a exaltação da violência como forma de entretenimento. Tal página é a mais crua evidencia da conteudização da violência no país, haja vista que, contando com milhares de seguidores, põe em voga diariamente gravações de pessoas brigando. Todavia, a espetacularização da agressão nos meios de comunicação em massa é uma idiossincrasia nacional a qual perpassa as redes sociais e decorre, sobretudo, da valorização midiática de uma realidade caótica, o que pode, importunamente, confrontar a democracia no Brasil.
Em primeiro plano, afirma-se que a mídia, ao compartilhar constantemente notícias e fatos insensíveis ao sofrimento alheio, corrobora a “Indústria Cultural”. Tal teoria dos pensadores Adorno e Horkheimer preconiza que, sob a força coercitiva do capitalismo, os meios de comunicação, quase que ubíquos atualmente, buscam alienar e manipular os interlocutores, de modo a criar uma “bolha” que faz deles reféns do que é mostrado por tais. Sob esse prisma, é notório que um dos meios para se atingir tal fito é a transformação da violência em um espetáculo noticiado, porquanto a “bolha” criada faz com que os espectadores sintam-se em uma sociedade dominada pela desordem e pela agressão. Em suma, enquanto o propósito midiático for alcançar uma audiência cada vez maior, a violência perpetuar-se-á como caminho para atingir tal intuito, de forma a ancorar os indivíduos a uma concepção de realidade respaldada em conflitos.
Por conseguinte, essa ótica imposta à sociedade é coautora de possíveis decisões políticas tortuosas. Essa conjuntura foi postulada por Manuel Arias Maldonado em seu livro “Nostalgia del Soberano”. Nele, de 2019, o cientista político espanhol mostra que a sociedade mundial, em face de mazelas políticas, econômicas e, mormente, sociais, tange a uma “saudade” de uma ordem, muitas vezes, protagonizada por soberanos, isto é, reis, ou, até mesmo, tiranos. Nessa perspectiva, em um mundo ilustrado pela violência - do ponto de vista dos cidadãos circunscritos pela “bolha supracitada”, a sociedade pode correr riscos à deriva do “Soberano” por optar pela ordem, a qual, dependendo das decisões políticas, pode ser extremamente controversa.
Portanto, infere-se que compete à sociedade, enquanto unidade que permite o viés capitalista das mídias, o dever de reivindicar dos meios de comunicação em massa o controle social - elucidado pela “Indústria Cultural” - que se naturalizou mediante a violência, por meio da organização de protestos, a fim de eliminar o traço nefasto da espetacularização da agressão. Dessarte, observar-se-ia uma população que diverge da criação de perfis como o “@todo dia brigas”.