Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 29/04/2020

O sociólogo francês Pierre Bourdieu, em seu livro " A distinção", defende o fato de o que foi feito para ser mecanismo de democracia não deve ser convertido em estrutura de opressão. Entretanto, percebe-se um papel contrário da mídia, grande exemplo de instrumento democrático, ao transmitir a violência de forma espetacularizada. Dessarte, é notória a configuração de conflituoso problema no Brasil no que concerne ao sensacionalismo midiático, seja pela falta de racionalidade, seja pela compactuação da sociedade, que confere graves efeitos no âmbito social.

Em primeiro momento, cabe analisar a falta de racionalidade nas transmissões da mídia na perpetuação do problema. Nessa perspectiva, o movimento intelectual europeu do século XVIII, conhecido como Iluminismo, defendia o uso da razão em todas as esferas da sociedade em virtude da melhor estruturação desta. Todavia, há um distanciamento da ação midiática de tal quadro, uma vez que esta expõe fatos em sua maioria sensacionalistas devido ao imediatismo da transmissão de notícias. Com efeito, sem a apuração factual adequada, os cidadãos tornam-se alucinados, desesperados e assustados com as informações que recebem, principalmente quando estas tratam-se de frequentes casos de violência.

Por conseguinte, é imperioso ressaltar a compactuação da sociedade promovida pelo espetacularização promovida pela mídia. Consoante a Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, uma mentira repetida se torna verdade. Em suma, os fatos exagerados e imparciais transmitidos pelo mecanismo midiático, por causa de sua frequente propagação, acabam por tornar-se verdade entre os cidadãos, sem as evidências concretas destes ou a consideração das informações relevantes à população, tal como a glorificação de criminosos envolvidos no ato violento ou o nome das vítimas do crime. Logo, os indivíduos, vinculados à ideia da mídia como sinônimo de transmissão da verdade, são compactuados por esta e regidos por fatos muitas vezes distorcidos ou sensacionalistas, os quais responsabilizam-se pela ignorância populacional diante das atualidades no país.

Torna-se evidente, portanto, a adoção de medidas para resolver o impasse. Assim, urge que o Ministério da Cidadania, em parceria com ONGs defensoras dos direitos humanos, crie vídeos e propagandas para plataformas de comunicação - como Youtube e Instagram - que comparem exemplos de notícias sensacionalistas com os reais acontecimentos em questão. Tais ações devem ocorrer por meio da campanha “Informação de verdade” e da hashtag “chega de espetáculo” a fim de evitar os efeitos negativos da espetacularização da violência pela mídia e conscientizar a população deles. Dessa forma, a máxima de Pierre Bourdieu se concretizará na sociedade.