Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 06/05/2020
“A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta é sempre uma derrota”. O pensamento sartreniano, apesar de amplamente divulgado, não condiz com a atual situação da sociedade. Tendo em vista à espetacularização da violência pela mídia, é evidente que a exposição das vítimas e dos acusados são estorvos no caminho de um Estado que se autodeclara democrático.
A priori, deve-se destacar a perseguição das vítimas e suas famílias por parte dos jornalistas, como visto no incidente ocorrido em 2020, em uma transmissão ao vivo do programa Cidade Alerta, onde uma mãe desmaiou ao ouvir um repórter divulgar que sua filha - antes apenas desaparecida - estava morta. Em outros termos, é perceptível que muitos jornais atuais buscam impactar os telespectadores, e não só trazer notícias. Afetando, evidentemente, o direito à privacidade e ao luto das famílias e vítimas.
Ademais, nota-se, ainda, a sede midiática de assumir o papel do júri na condenação dos indivíduos envolvidos em casos de violência, e também da polícia - haja vista programas como o Brasil urgente, que investigam de forma autônoma e inconsequente tais crimes. Dessa forma, os jornais conquistam a tão desejada audiência, porém, influenciam atos como a justiça com as próprias mãos além de prejudicarem uma futura ressocialização dos indivíduos devido à uma difamação em massa dos mesmos.
Fica evidente, portanto, a necessidade de uma intervenção nas atitudes da mídia, sem que haja de fato a possibilidade de retorno da censura. O governo, por meio do Ministério das Comunicações deve multar emissoras que violarem a privacidade e dignidade de vítimas e acusados em crimes de violência, visando reformular o conceito deturpado de jornalismo que estas empregam. Somado a isso, o Ministério das Comunicações ainda deve implementar comerciais ao longo da transmissão de todas as emissoras com o objetivo de atentar à população sobre a possibilidade de denunciar ao MPF abusos por parte dos meios de comunicação nesse contexto. Dessa forma, o respeito e a dignidade serão mantidos, e a violência voltará a ser uma derrota, e não mais uma ferramenta de audiência.