Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 09/05/2020
No filme de drama policial “O Abutre”, é retratado um homem que, para conseguir um emprego formal, ganha a vida registrando crimes e acidentes chocantes, vendendo-os para noticiários interessados. Não diferente da ficção, hodiernamente, tal espetacularização da violência pela mídia brasileira aparenta convergir à realidade de forma jamais vista, trazendo, de forma intrínseca, problemas como o recrudescimento de contextos nos quais se misturam práticas deletérias capitalistas de maximização do lucro somadas à banalidade de atos violentos. Dessa forma, convém analisar esse quadro desabonador, a fim de, possivelmente, tentar revertê-lo.
A priori, é imperioso ressaltar a questão capitalista como fator preponderante no que concerne à sedimentação dos atos enfáticos para notícias de violência. Segundo o sociólogo Karl Marx, a economia é a base da sociedade e condiciona sua forma de agir e pensar. Sob respectivo viés, as empresas de jornais, em busca de audiência e em virtude da maximização dos ganhos, fitam tornar ações inescrupulosas, como assassinatos, interessantes e merecedores de atenção em detrimento de preceitos éticos, como o respeito à morte. Exemplo decorrente dessa conjuntura, foi o “Caso Richthofen”, pelo qual tornaram-se conhecidos o homicídio, a consequente investigação e o julgamento das mortes do casal Richthofen a mando da filha Suzane.
Sob outro ângulo, em consequência do fator supracitado, torna-se, cada vez mais, comum a violência perante ao corpo social, inclusive, infelizmente, às crianças. Segundo o filósofo Aristóteles, em seu livro “Ética a Nicômaco”, as crianças são amorais e não sabem distinguir o que é certo e errado. Dessa forma, sendo o humano produto do meio em que vive, quando a mídia - principal veículo formador de opiniões - bombardeia o corpo social com violência gratuita, tratando-a como banal, as crianças tendem a internalizar tal pensamento de forma a reproduzi-los. Logo, passa a ser substancial a alteração desse quadro de forma urgente.
Depreende-se, portanto, que a espetacularização da violência pela mídia advém de interesses da face obscura do capitalismo e necessita de medidas as quais possam aproximar esse entrave de sua solução efetiva. Para tanto, cabe ao Estado - garantidor de todos os direitos para o bem comum -, através do Poder Legislativo, conter o excesso da valorização e exibição de notícias que exploram atos de brutalidade. Isso pode ser efetuado com a criação de uma lei a qual estabeleça limites para a veiculação de imagens e videos de violência extrema em canais abertos e em horário nobre, objetivando, assim, impedir a banalização de morte, além de, concomitantemente, a internalização da violência entre as crianças.