Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 13/05/2020
No filme ‘‘O Abutre’’, é retratado o cotidiano do jornalista Louis Bloom, que começa a trabalhar no ramo criminal a fim de ganhar dinheiro, buscando vencer a concorrência na filmagem de crimes violentos e acidentes chocantes. Fora do universo cinematográfico, tal espetacularização da violência tornou-se comum no cenário brasileiro, apresentando como principais consequências o crescimento da mercantilização cultural, somado à crescente banalização da violência na sociedade.
A priori, é importante destacar o processo de transformação dos instrumentos culturais em mercadorias, devido à problemática em questão. É sob esse prisma que os veículos midiáticos, na procura por notícias violentas em primeira mão, estimulam cada vez mais a concorrência no setor, fazendo com que as demais empresas de comunicação busquem sempre o aumento da audiência, a fim de gerar maiores lucros. Acerca disso, é fundamental lembrar do conceito de indústria cultural, dos filósofos Adorno e Horkheimer, o qual é definido como um sistema que tem por finalidade produzir bens de cultura como mercadorias e estratégias de controle social. Dessa forma, ao espetacularizar a violência, a mídia promove a mercantilização da comunicação de massa e, por conseguinte, limita o acesso da população à informações verdadeiramente úteis.
Ademais, a banalização da violência no Brasil é uma consequência direta da problemática em questão: ao expor atos violentos de maneira excessiva, a mídia estimula a formação de uma sensação de normalidade nos espectadores, que tornam-se cada vez mais habituados com a ocorrência de crimes no cotidiano. Dessa forma, ao banalizar-se a violência, também torna-se cada vez mais difícil promover o respeito às leis, estas que, segundo Platão, são as responsáveis por conduzir os indivíduos ao respeito pelo próximo. Sendo assim, é lógico inferir que faz-se imperiosa a alteração desse cenário.
Evidencia-se, portanto, a relevância do debate acerca da problemática em questão, que carece de soluções. Logo, a fim de mitigar a mercantilização dos instrumentos culturais, urge que a Secretaria Especial da Cultura - órgão submetido ao Ministério do Turismo -, promova seminários e palestras públicas, além de transmissões ao vivo, de entrevistas e debates voltados ao pensamento filosófico e sociológico, por meio da divulgação em redes sociais, fazendo com que a população tenha maior acesso às ideias de pensadores como Adorno e Horkheimer, diminuindo o interesse das pessoas por notícias de violência e, consequentemente, reduzindo a audiência destas. Outrossim, é necessária a atuação do Ministério da Segurança Pública, por meio de parceria com o Poder Judiciário, em garantir o devido cumprimento das leis de combate à violência, a fim de reduzir a banalização desta. Somente assim, casos como o de Louis Bloom, do filme ‘‘O Abutre’’, serão cada vez mais raros.