Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 14/05/2020

A filósofa Hanna Arendt declarou, por meio do conceito de banalidade do mal, que a incapacidade de refletir sobre os próprios atos promove a crueldade. Embora a denúncia de Arendt seja contundente, é problemático que parcela da mídia brasileira não consiga, meio século depois, realizar tal reflexão, haja vista os recorrentes casos de espetacularização da violência promovidos por esse meio. Dessa forma, o entrave dessa publicidade nefasta pressupõe não só uma perspectiva humanista, como também uma visão sociológica.

Em primeiro lugar, é fundamental destacar que a imprensa tem papel essencial na formação moral do público. A esse respeito, o humanista Mahatma Gandhi propôs a não-violência como conceito de vida plena e de manifesto civil. Entretanto, a ideia de Gandhi é dilacerada por jornais e programas de TV à medida que, em vez de promoveram a pacificação, dão publicidade, quase que exclusivamente, ao mal. Assim, o público é formado a partir da mazela da naturalização da violência.

Por consequência, o consumidor tende a reproduzir a violência trazida pela mídia. Nesse aspecto, o sociólogo Pierre Bourdieu teoriza que a influência das referências a que tem acesso os indivíduos cria o “capital cultural” que desenvolverá o cidadão em suas amplas dimensões. Ocorre que a espetacularização da ira cria, pois, uma herança parcial e trivial da violência, a qual dialoga com a teoria de Bourdieu. Logo, as pessoas são desrespeitadas em seu direito de acesso ao conteúdo diverso, bem como são induzidas a uma formação vil.

Portanto, é salutar que a espetacularização da violência seja combatida. Para tanto, o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR), que tem a função de regular abusos midiáticos, deve fiscalizar e punir os veículos que adotarem peças exclusivamente abusivas, por exemplo o “Programa do Datena”, por meio de multas e restrições de exibições, a fim de salvaguardar o público do conteúdo tóxico. Ademais, o Estado precisa investir em publicidade positiva com o intuito de equilibrar a balança de formação social e, dessa maneira, contribuir para a reflexão pretendida por Hanna Arendt.