Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 09/08/2020

No filme “O abutre” o protagonista sociopata Louis Bloom imerge no submundo do jornalismo criminal ao filmar tragédias recorrentes em sua cidade, no intuito de vende-las a emissoras de TV interessadas. De maneira análoga à ficção, percebe-se a espetacularização da violência pela mídia brasileira. Nesse sentido, faz-se imprescindível a análise destes desdobramentos: a naturalização do sofrimento e o potencial mercadológico que a miséria agraria, como consequências que acirram a problemática.

Sob esse viés, é fundamental destacar o perigo da alta exposição da sociedade às mazelas sociais. Acerca disso, no célebre livro Eichmann em Jerusalém, a filósofa Hannah Arendt reitera a trivialidade da falência dos valores morais como forma de propagação da maldade, ou seja, o mal, quando rotineiro, torna-se ainda mais perverso, pois tende a ser banalizado. De semelhante modo, os veículos midiáticos expõem a sociedade ao espetáculo da tragédia diariamente, por meio do jornalismo sensacionalista pouco preocupado com as responsabilidades éticas, como o da obra cinematográfica supracitada. Assim, a naturalização do sofrimento alheio, segundo Arendt, tende a dessensibilizar o telespectador e infelizmente transforma o flagelo desumano em lazer das massas.

Além disso, cabe ainda destacar a mercantilização da violência como pano de fundo que sustenta a problemática. Sob esse prisma, o conceito de indústria cultural, cunhado por Adorno e Horkheimer – filósofos da escola de Frankfut - explica como a sociedade moderna tem sido reduzida à lógica de mercado, na qual até mesmo a tragédia pode ser comercializada. Por exemplificação, o jornalista Luiz Bacci, apresentador do Cidade Alerta, divulgou ao vivo a uma mãe a notícia que sua filha sequestrada tinha sido assassinada pelo namorado, nesse momento havia uma equipe filmando a reação da mãe em rede nacional. Depreende-se, portanto, a subversão do papel da mídia de democratizar a informação pelo subterfúgio da audiência e da lucratividade, estabelecida pelo espetáculo da violência.       Destarte, urge que o Ministério da Cidadania e as Secretarias Municipais de Educação promovam a criticidade da sociedade por meio de debates e palestras públicas - ministradas por assistentes sociais e psicólogos especializados - que alertem a influência midiática nos valores morais, a fim de humanizar os cidadãos e torna-los mais empáticos e, assim, impedir a comercialização e banalização da violência. Dessa maneira, o submundo jornalístico não será mais atrativo, mas sim repudiado.