Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 24/05/2020
No filme, “O Abutre”, é mostrado como um jornalista cruza os limites da ética e moral para registrar e vender cenas de violência urbana para as redes americanas de noticiário que as expõe sem nenhum pudor. Essa ficção dialoga com uma realidade brasileira, visto que, todos os dias ,inúmeros canais colocam no ar cenas de crimes, abusos e acidentes, em busca de audiência.Tal conjuntura é preocupante, uma vez que essa espetacularização gera consequências para toda sociedade, como a propagação de atos hostis e a manutenção de preconceitos.
A princípio, é fundamental notar que as cenas mostradas em alguns noticiários brasileiros podem aumentar a hostilidade da população, uma vez que promovem a visão de perigo constante da realidade. Dessa maneira,a agressividade surge como uma forma de defesa pelo medo criado, assim como visto no caso em que um menino foi linchado e preso pelo pescoço em um poste por roubar celulares no Rio de Janeiro.Tal panorama mostra que a mídia faz parte do “fato social”, teoria criada pelo sociólogo Émile Durkheim, o qual mostrava que alguns aspectos, como a ideia de uma realidade extremamente feroz passada pelos jornais, molda o comportamento do indivíduo. Esse panorama é agravado pelo fato de que, conforme o IBGE, apenas 5% da população não possui televisores, o que mostra que a maioria dos brasileiros esta exposto a esse conteúdo, o que gera mais atos de violência no país.
Outrossim, é necessário perceber que, de acordo com o Departamento penitenciário nacional, mais de 60% da população carcerária advém de classes sociais baixas, e a espetacularização de crimes pelas mídias aumenta o preconceito com esse grupo econômico. Essa realidade é discutida pelo sociólogo Jessé Sousa no livro “Ralé do Brasil”, o qual mostra que a repulsa ao pobre é estrutural, advindo desde a formação do país, e que pode ser visto atualmente, por exemplo, na continuidade da falta de direitos básicos em favelas e comunidades.Nesse sentido, a exposição de crimes em programas policiais e noticiários,cometidos pela população de baixa renda, tem como consequência a relação da pobreza com a criminalidade, e com isso a permanência do preconceito e desigualdades no país.
Portanto, é comprovado que a espetacularização da violência no Brasil não possui efeitos benéficos para o bem comum, sendo necessário alterar essa realidade. Destarte, é papel do Governo impedir que imagens agressivas sejam transmitida por programas televisivos, por meio da criação de uma legislação que fiscalize a mídia, e por exemplo aplique multas, para que a população não seja influenciada a cometer atos hostis. Ademais, é fundamental que os meios de informação substituam o conteúdo que mostre o pobre como criminoso, a fim de diminuir a as diferenças sociais no país.