Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 22/05/2020
A série britânica “Black Mirror”, criada por Charles Brooker, possui um episódio intitulado “White Bear”, nome de um parque fictício que foi criado para pessoas assistirem e participarem de torturas de condenados pela justiça. Fora da ficção, conjuntura semelhante é realidade no Brasil em decorrência da espetacularização da violência pela mídia. Diante dessa perspectiva, cabe avaliar os fatores que favorecem esse quadro.
É importante ressaltar, em primeiro plano, que os brasileiros estão cada vez mais próximos da ficção apresentada em “Black Mirror”. De acordo com o portal “G1”, em 2014, uma dona de casa foi linchada e morta no Guarujá (SP) após ser confundida com a descrição, que circulava nas redes sociais, de uma sequestradora de crianças. Portanto, pode-se concluir que existem os sentimentos de inquietação e insegurança na população, gerados por discursos distorcidos das mídias sociais, que contribuem para visões negativas e pré-julgamentos.
Cabe mencionar, em segundo plano, que os telejornais brasileiros, em busca de noticiar os fatos em “primeira mão”, acabam por espetacularizar, além da violência, o sofrimento das famílias envolvidas em tragédias. No telejornal “Cidade Alerta”, da Rede Record, no primeiro semestre de 2020, a sede pelo imediatismo fez uma mãe desmaiar ao saber da morte da filha ao vivo. Destarte, em analogia ao pensamento do sociólogo polonês Bauman, esse imediatismo é uma característica da fluidez de pensamento de uma cultura imediatista resultante da modernidade líquida.
Portanto, a União deve criar uma proibição de espetacularizações da violência e do sofrimento das famílias envolvidas em tragédias e circulação de notícias sem comprovação nas mídias, por meio de votações no Congresso Nacional de leis que promovam penas caso essas medidas sejam descumpridas, com a finalidade de evitar crimes semelhantes ao ocorrido em Guarujá e situações similares a ocorrida no noticiário “Cidade Alerta”. Decerto, assim a realidade se distanciará da ficção apresentada em “Black Mirror”.