Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 19/05/2020

Considerado uma das sete maravilhas do mundo, o Coliseu Romano, famoso no imaginário popular, foi palco dos mais diversos banhos de sangue ao grande público, da luta de gladiadores a execução de criminosos, sendo, talvez, o mais famoso exemplo de entretenimento por meio da violência no imaginário popular. Porém, em meio a noticiários cada vez mais sanguinolentos, o terror generalizado e a crescente banalização da violência fazem da espetacularização criada pela mídia nada mais que uma releitura contemporânea do Anfiteatro Flaviano.

A fim de apurar tal questão, é crucial analisar esse fenômeno sob óptica sociológica. Guy Debord define o espetáculo como um conjunto de relações mediadas por imagens que visa servir à sociedade capitalista e seu desejo de transformar tudo em  um potencial genitor de lucro. Nesse contexto, a violência exposta pela mídia nada mais é que uma representação, frequentemente, exagerada da realidade que procura chocar a audiência a fim de aumentar o número de vendas. Essa superexposição teatral, ao transformar o mundo real em um verdadeiro coliseu, torna a população mais suscetível a acatar medidas autoritárias do governo ou abdicar de sua privacidade devido ao clima de terror que permeia a comunidade.

Entretanto, vale notar que, embora consciente da onipresença da truculência no cotidiano, a grande massa demonstra uma profunda indiferença quando presencia atos violentos. Essa alienação quase paradoxal pode ser explicada sob o ideário de Arendt e seu conceito de banalidade do mal. Ao presenciar o julgamento de Eichmann, a pensadora observou que o homem responsável pela logística do Holocausto não reconhecia sua própria crueldade, pois estava tão exposto a ela que acabou considerando-a natural. Da mesma forma, massacres, estupros e assaltos entranham-se no cotidiano do telespectador, sendo exibidos em forma de mosaico: imagens violentas de um tiroteio dão lugar a um desfile de moda que, em seguida, se transforma em um patricídio. Esse imbróglio de informação acaba por minar a empatia do indivíduo que naturaliza a truculência como parte do cotidiano e o sofrimento humano como trivial.

Destarte, observa-se que espetacularização da violência não só aterroriza a população como a insensibiliza, exigindo atenção imediata das autoridades. Dessa forma, a fim de mitigar tal fenômeno, é capital que a ANATEL, responsável pela regulação das telecomunicações, fortaleça seu poder de fiscalização por meio da aplicação de sanções onerosas a veículos que violem a ética jornalística e não sirvam nem à verdade nem à utilidade pública. Só assim, o sangrento coliseu contemporâneo será renegado a seu papel original: uma simples memória de tempos remotos.