Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 03/06/2020
No episódio “Urso Branco”, da série norte-americana Black Mirror, é narrado um futuro distópico, no qual a personagem principal - chamada Victória - está fugindo de assassinos, enquanto grita por socorro. No entanto, os outros personagens, ao verem a sua aflição, apenas a filmam e observam, o que revela como as situações de violência são vistas como uma forma de entretenimento. No Brasil, entretanto, a realidade não é muito diferente, uma vez que a espetacularização da violência pela mídia brasileira representa um fator nocivo que deve ser enfrentado de forma mais organizada pela sociedade. Isso se evidencia não somente pela necessidade de lucro e competição por audiência entre empresas midiáticas, mas também pela ocorrência de crimes cada vez mais cruéis.
Em primeiro lugar, a competição por público e a busca dos maiores lucros entre as mídias atuais é um fator crucial ao analisar o problema. No livro “Sociedade do Espetáculo”, do filósofo Guy Debord, é explicitada sua teoria de que todas as pessoas vivem suas vidas como se fosse uma performance, tentando oferecer o melhor show. Essa teoria foi agravada pela globalização, que acarretou a rapidez de compartilhamento e disseminação de notícias. Dessa forma, a mídia brasileira preocupada em atrair mais audiência, alcançar maiores lucros e disponibilizar entretenimento, busca a melhor e mais rápida cobertura dos acontecimentos, mesmo que para isso, seja necessária a superexposição de casos de violência e, sua consequente, espetacularização.
Por conseguinte, tal exposição excessiva de crimes pela mídia pode ser considerada como um a forma de gatilho, em alguns casos, para o advento de novos delitos, cada vez mais cruéis. Isso se demonstra no caso dos Atiradores de Suzano, em 2019, que se tornou alvo de grandes críticas por conta da grande liberação de informações sobre a compra de armas dos jovens pelos veículos de informação. Desse modo, a influência dos meios de comunicação pode servir como incentivo ou inspiração para que outros indivíduos cometam diferentes crimes. Assim, a transmissão exagerada pela mídia corrobora para o círculo da violência brasileira.
Portanto, além de promover campanhas publicitárias contra a espetacularização da violência, o Estado e o Ministério Público devem criar um projeto de lei que será entregue à Câmara dos Deputados, a fim de regulamentar os limites da exposição de casos mais violentos pela mídia. Isso deve ocorrer por meio de um acordo com empresas de telecomunicações, com o objetivo de criar horários ideais para a notificação mais detalhada desses casos, como no horário noturno - que possui menor audiência - para que crianças e menores de idade não tenham acesso excessivo a essas informações, assim evitando possíveis consequências nocivas para seu carácter.