Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 06/06/2020

Logo no início da célebre obra Capitães da Areias, o leitor é exposto a manchetes de jornais fictícios que retratam a indignação do público com a presença de crianças de rua chamadas de “ladronas” em Salvador. Fora da ficção, a mídia do Brasil atual tem feito um importante trabalho na exposição das situações adversas encontradas no país. No entanto, a necessidade de audiência fez com que a autenticidade da informação desse lugar a espetacularização da violência, que, como consequência, traz mais ódio e dificulta o discernimento entre o que é fato e o que é mera especulação.

Antes de tudo, vale ressaltar que a superexposição da população às notícias não vem dando bons frutos. A cada dia, uma nova notícia de assalto, assassinato ou massacre chega às telinhas, e, ao mostrar mães chorando pela perda de seus filhos, ou comunidades indignadas com o trabalho da polícia, não só as mídias televisivas, mas também o novo jornalismo amador que chega quase que instantaneamente na internet, ao invés de resolver a situação, causam ainda mais repúdio à sociedade. Assim, a política da justiça com as próprias mãos toma forma, e sem que haja uma real demonstração de solidariedade em ambas as partes, não haverá paz.

Ademais, a diminuição da credibilidade na qual está condenada a mídia brasileira é outro fator preponderante. O filósofo grego Sócrates acreditava que a verdade deve ser a exata medida da realidade, e que ela não deve ser moldada a interesses privados. Dessa forma, os esforços da imprensa brasileira em aumentar os fatos, como na estória do Menino e a Raposa, pode resultar na descrença da população aos assuntos futuros que podem sim ser muito importantes, como quando a raposa realmente existia e ninguém acreditou no rapaz para ajudá-lo a salvar o rebanho. Melhor dizendo, para a garantia de um futuro aos meios de comunicação, eles devem adequar-se ao seu verdadeiro propósito: Informar com veracidade.

Torna-se claro, portanto, que a violência não deve ser considerada a protagonista das histórias reais brasileiras. Nesse sentido, cabe ao Ministério da Educação, em consonância com as universidades de jornalismo do país elaborarem projetos que visem a integração real do jornalista com a sociedade, por meio de visitas as comunidades que sofrem constantemente com a violência em todos os sentidos, para que laços de fidelidade possam ser criados entre as partes e que a verdade seja a principal aliada da nação, evitando que as notícias excedam o grau necessário da informação. Somente assim, o país perceberá que a realidade de verdades moldadas a necessidades, como as ocorridas na obra de Jorge Amado, podem sim ser revertidas, e resultar em bons frutos para a sociedade.