Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 07/06/2020
No filme “O Abutre” de Dan Gilroy,é retratado um cenário problemático em que noticiários americanos transfiguram a barbárie humana em entretenimento a ser disseminado pela indústria midiática,a fim de gerar lucros.Fora da ficção,a realidade apresentada por Gilroy pode ser relacionada ao quadro violento do século XXI:açodadamente,programas sensacionalistas ganham corpo na sociedade brasileira e, erroneamente,contribuem para a espetacularização da brutalidade.Tendo em vista que o uso improcedente dos meios televisivos pode induzir telespectadores a adotar comportamentos violentos ou promover o desencantamento de mundo,é imprescindível buscar alternativas que inibam esse espetáculo hediondo no Brasil.
Em primeiro lugar,é de suma relevância analisar como a produção do crime em espetáculo corrobora a violência.De acordo com Guy Debord,filósofo francês,vive-se um período no qual nuances da vida privada são convertidas em realidades pictorialísticas,ou seja,movimentos trágicos da vida civil são fotografados e vendidos para a população como uma espécie de show.Nesse sentido,parte do público atingido pelos programas adeptos à banalização da barbárie,gradativamente,interpreta os atos violentos com certa normalidade,visto que a grande mídia converte a tragédia em entretenimento.Partindo desse pressuposto,é nítido que a banalização da tragédia edifica pensamentos violentos na plateia-alvo, assim sendo,a reprodução da truculência é reflexo do comportamento sensacionalista midiático.
Em segundo lugar, cabe refletir o papel da mídia na construção do medo na sociedade brasileira. Em conformidade com uma pesquisa realizada em Oxford na Europa, 60% dos brasileiros confiam nas notícias veiculadas pela mídia, isto é, mais da metade da nação brasileira acredita sem hesito no jornalismo televisivo. Entretanto, a forma como parte do público assimila os relatos edifica uma sociedade com medo e desencantada, posto que os fatos relatados pela mídia são sensacionalizados. Dessa forma, a tese de Max Weber se concretiza, já que o “Desencantamento de Mundo” é presente na parte massiva dos telespectadores brasileiros, uma vez que a violência superdimensionada pela rede midiática promove o medo e, consequentemente, o entristecimento de vida pelo público.
Logo, o governo, aliado com as grandes indústrias jornalísticas, deve buscar alternativas para modificar a utilização da violência como objeto a ser vendido, por meio da criação de novos projetos com vistas a minimizar a distorção da truculência pela mídia, a fim de reproduzir fatos críveis com o objetivo de erradicar a reprodução violenta do público. Ademais, é fulcral que os mesmos órgãos busquem conscientizar a nação, por meio de propagandas elucidativas, buscando despertar o que vem sendo apagado:o encantamento de mundo. Assim, será possível restringir a problemática de Gilroy à ficção.