Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 19/06/2020

Publicada pela ONU em 1948, a Declaração Universal dos Direito Humanos garante a todos o direito à privacidade e ao bem-estar social. Entretanto, na contemporaneidade – em especial no Brasil – esse conceito não tem se mostrado válido, ainda mais quando se põe em pauta a forma como a mídia do país apresenta casos criminais ao grande público de maneira quase novelesca. Nessa perspectiva, é preciso ressaltar que consequências sérias podem se ramificar a partir desse tipo de narrativa.

Em principio, pode-se aplicar à situação a máxima do filósofo francês Guy Debord na obra “A Sociedade do Espetáculo”, que afirma que a sociedade moderna é manipulada por imagens criadas. Sendo assim, são sempre formatadas maneiras de tornar mais atraente tudo aquilo que está sendo noticiado ao público, o que acaba por desencadear um enorme sensacionalismo dentro do meio jornalístico, criando não só um endeusamento sobre a prática da violência (visto em crimes cometidos por autoridades) como também um senso exacerbado de justiça que leva a população a pensar maneira pouco racional. Dentro dessa realidade, é nítido que a forma de se noticiar casos de violência no Brasil é problemática e prejudicial.

Ademais, como visto no documentário “Quem Matou Eloá?”, essa espetacularização de um crime pode também gerar influências tanto nas investigações, como no comportamento dos próprios praticantes do crime, como exemplificado pelo caso abordado na obra. Desse modo, o sofrimento da vítima e de seus parentes acaba sendo relativizado em prol de se tornar uma fonte de entretenimento para a audiência, que aguarda ansiosamente a próxima notícia, se frustrando ao perceber que a realidade das investigações não é tão empolgante como na maneira em que é vendida. Logo, é de suma importância que seja revista a forma como esse tipo de notícia é veiculado na mídia.

Em virtude do que foi mencionado, é certo que não pode haver uma perduração da situação. Cabe então ao Ministério da Comunicação, por meio da criação de um órgão público constituído por profissionais da área de jornalismo e comunicação e em parceria com os grandes canais da mídia brasileira, traçar formas mais limpas e responsáveis de se divulgar informações sobre crimes de violência  e desmentir manchetes sensacionalistas acerca dos casos, a fim de garantir que o mínimo possível de crimes seja noticiado como uma obra novelesca. Pretende-se, dessa forma, frear a espetacularização da violência na mídia brasileira.