Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 16/07/2020

Embora, a importância inquestionável do discurso jornalístico e o direito à informação do cidadão, a  problematização da maneira pela qual a violência é retratada pela mídia brasileira é de suma notabilidade. Nesse âmbito, a sua superexposição prejudica o corpo social ao fomentar o imediatismo da comunicação, pois inibe a investigação factual cautelosa. Assim, a espetacularização violenta provoca a instabilidade popular, incredulidade social e um negativo quadro letárgico de todo espectro.

Nessa perspectiva, a obra cinematográfica brasileira  - Cidade de Deus-  explicita a situação vivida por brasileiros em contato diário com a violência e como essa banalização os afeta, tendo em vista o porte de armas por crianças no filme, por exemplo. Por conseguinte, a realidade carioca retratada é análoga àquela presente na veiculação midiática da violência como propaganda da morte - abordagem comprovada pela análise da programação televisiva do país, a qual garante notoriedade a assuntos policiais excessivamente transmitidos. Dessa forma, a  “cultura do medo” é construída socialmente - isto é - o sentimento de perigo, cuja insegurança  corrobora ao sentimento de enclausuramento do cidadão. Logo, exemplifica-se o quadro pelas diárias manchetes em jornais impressos sobre crimes e mortes.

Além disso, nota-se que é inalienável o direito de todo cidadão ter acesso à informação como previsto pela Constituição Federal de 1988. No entanto, a problematização desse quadro permeia os efeitos da sobrecarga de conteúdos violentos sobre o indivíduo, a qual  torna-o habituado a casos de morte, o que denuncia a tendência desumanizadora da sociedade, como delimitado pela filósofa Hannah Arendt pela tese " A Banalização do Mal". Nesse contexto, esse quadro é percebido pela divulgação de imagens do jornal O Globo, as quais mostram um  grupo de jovens praticando esportes próximo a corpos abatidos no Rio de Janeiro; quando questionados sobre seus comportamentos, um deles menciona a sua convivência diária com a morte no local onde mora. Dessa maneira, a espetacularização da violência gera uma apatia generalizada, onde a insensibilidade diante de acontecimentos denuncia a perda do sentido de humanidade.

Portanto, a garantia do direito à informação e à liberdade de imprensa são inegociáveis e devem ser mantidos, mas a maneira de comunicar determinados eixos temáticos deve ser revista. E para tal, cada veículo de comunicação do Brasil  deverá realizar comissões de ética as quais possam instruir seus colaboradores sobre a abordagem moral adequada da violência como notícia jornalística, por meio de cursos de especialização gratuitos e online ministrados por profissionais capacitados. Nesse sentido, essa ação deverá ocorrer com o objetivo de destituir do repórter a imagem de “bombeiro incendiário”, a qual insufla o medo e a insensibilidade do cidadão, como visto nos telejornais citados.