Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 19/06/2020
Francisco de Goya, artista de século XIX, produziu uma gravura marcante, intitulada “Por uma navalha”; nela, um indivíduo é estrangulado em público por possuir uma navalha de barbear. Ainda que atualmente tal execução seja considerada hedionda e lastimável, para aquele contexto tratava-se de algo comum. Semelhantemente, a sociedade brasileira contemporânea tem possuído contato crescente com atos violentos, fato potencializado com a espetacularização da violência exercida pela mídia. Embora inicialmente pareça inofensivo, espetacularizar atos bárbaros tem corroborado não só com um “terror coletivo” mas também com discursos de ódio.
Primordialmente, é importante destacar que a mídia tradicional - especialmente a televisiva - utiliza a violência para atrair público, já que tratam-se de notícias que provocam fascínio e terror na audiência. Desse modo entende-se o porquê de cada emissora usar consideráveis minutos de seus noticiários para esse tipo de informação, não preocupando-se em investigar, mas sim em comover. Nesse âmbito, vale ressaltar que os indivíduos permanecem em constante contato com a violência e isso propaga-se no modo como eles convivem em sociedade. O medo e terror de tornarem-se vítimas das violências que eles tanto assistem em programas policiais provocam um estado intenso de perturbação e vulnerabilidade em tais cidadãos.
Além disso, espetacularizar a violência abre margens para sensacionalismos extremos, repletos de ódio. Visto que os indivíduos tendem a sentir maior insegurança e vulnerabilidade quando são “bombardeados” com notícias hostis, demagogos sensacionalistas aproveitam-se disso, utilizando discursos simplórios contudo persuasivos, visando à popularidade. Tal fato torna-se preocupante já que a discursividade populista instiga mais violência e pode gerar descontrole social (bem visível nos crescentes casos de linchamentos).
Desse modo percebe-se que o fenômeno da espetacularização da violência, realizada pela mídia, provoca consequências negativas no meio social brasileiro. Portanto, faz-se necessário uma mudança no modo de abordagem das notícias, visando mais à investigação. Para isso, cabe ao recriado Ministério das Comunicações promover debates e palestras, envolvendo os principais veículos de comunicação, a fim de personalizar a maneira de transmissão da informação. Assim, diferentemente da gravura de Goya, a população brasileira não observará a violência como algo comum, mas sim como alvo de combate.