Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 20/06/2020

Compreendida dentro da sociedade capitalista, a “sociedade do espetáculo” do escritor francês Guy Debord é visão cujo poder espetacular se manifesta pela veiculação de imagens em divulgação intensa, contrária à reflexão crítica e consonante ao consumo imediato. Nesse contexto, observa-se, hodiernamente, impasses relacionados à espetacularização da violência pela mídia brasileira, explicada, ora pelo imediatismo na divulgação de notícias, ora pela concepção da violência como resposta à violência.

Em primeiro lugar, as mídias brasileiras contribuem para a banalização da violência e, consequentemente, da vida, ao sensacionalizar as informações que chegam ao público. Nesse sentido, na concepção de Horkheimer a Adorno - expoentes da Escola de Frankfurt - a Indústria Cultural é o modo como os produtos culturais seguem a lógica do mercado, perdendo suas funções originais e visando consumo. Com isso, é compreendido o imediatismo na produção informacional, que, na tentativa de potencializar a audiência, age em desacordo com a autenticidade e põe holofotes na violência, glamouriza e espetaculiza o crime. Adicionalmente, essa problemática remonta um temor pela criação de terror no público e pela má informação, visto que os veículos midiáticos não estão comprometidos, em sua totalidade, com a veracidade do que informam.

Outrossim, segundo dados do Núcleo de Estudos da Violência da USP (Universidade de São Paulo) acerca de registros de linchamento desde 1980, quando o caso tem maior repercussão, a tendência ao linchamento também é maior. Sob esse viés, estima-se a forma como as mídias, tal qual as redes sociais, são amplificadoras de informações, ocasião em que a violência é cada vez mais incitada junto de falsas verdades, estimulando a população - que crê na impunidade e na ineficiência da força policial - a fazer justiça com as próprias mãos. Sob esse prisma, faz-se necessário medidas que impeçam os usuários das mídias de tomarem frente no combate à violência, usando do mesmo artifício.

Depreende-se, portanto a necessidade de se combater as consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira. Para tanto, cabe ao Ministério da Cidadania propagar - por meio de outdoors, palestras com estudiosos em praças públicas e carros de som - o consentimento da autorregulação do consumo de mídias, como forma de não nutrir a indústria com a perpetuação da ideia imediatista das notícias. Pararelamente, o Ministério da Cultura deve advertir as maiores fontes de notícias fraudulentas do país, por meio de intimações e notas de repúdio, objetivando reconstruir a ideia das mídias em sua função original, informar e formar opiniões. Assim, o Brasil poderá superar essa problemática e caminhar para um futuro mais absterso e crível a todos.