Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 02/07/2020
A mídia tem como função divulgar informações à população, sendo essencial ao facilitar a obtenção de conhecimento em uma sociedade democrática. No entanto, com a exacerbada busca por imediatismo e audiência, os meios midiáticos utilizam a espetacularização de tragédias diárias como forma de atração do público. Nesse sentido, cenas como a televisionada pelo programa “Cidade Alerta”, em que, durante entrevista, uma mãe desmaia ao descobrir ao vivo o assassinato de sua filha, são cada vez mais recorrentes. Dessa forma, cabe analisar as consequências dessa mídia sensacionalista, atreladas à naturalização e romantização da violência.
Inicialmente, é indubitável a banalização do sofrimento pela espetacularização. Nesse cenário, os jornais e programas monetizam a violência por meio da narração e dramatização e, assim, a transmissão das tragédias se assemelha a episódios de uma novela ou um filme em que o desconsolo dos indivíduos é apenas um mero elemento da trama que atrai o público. Portanto, alegando uma falsa sensibilização, a mídia expõe excessivamente as vítimas e suas famílias, e a extrema quantidade de notícias violentas transmitidas é erroneamente naturalizada pela sociedade.
Ademais, cabe mencionar também a problemática da romantização. Analogamente, o documentário “Quem matou Eloá?” retrata de forma crítica a atuação da mídia na cobertura do sequestro de Eloá pelo seu ex-namorado Lindemberg. Sob tal perspectiva, o curta metragem aponta o descaso dos meios midiáticos ao abordarem o crime como uma simples demonstração de amor e que tudo não passava de uma crise de ciúmes do rapaz. Além disso, os jornais entravam diretamente em contato com o criminoso, transmitindo as conversas ao vivo, e afirmavam que no final ele e a vítima ficariam juntos. Nesse viés, a espetacularização e romantização da violência, principalmente contra a mulher, pela mídia contribuem com a perpetuação de casos de violência ao retratarem os crimes como atos amorosos.
Nessa diretriz, infere-se que a construção de narrativas análogas à filmes a partir de tragédias reais pelos meios midiáticos gera a banalização e romantização dos crimes. Destarte, é de suma importância que o governo federal, por meio do Legislativo, crie leis específicas que controlem a atuação da mídia na cobertura de crimes, ao proibir a divulgação de dados da vítima e exposição de fotos sem a autorização das famílias, visando evitar casos como o sequestro de Eloá. Outrossim, é necessário que jornais e programas de televisão criem plataformas na internet, como sites, permitindo que os indivíduos expressem suas opiniões acerca de como as notícias são transmitidas, a fim de mitigar o sensacionalismo midiático e assim, diminuir a espetacularização da violências e suas consequências.