Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 03/07/2020

De acordo com a Constituição Federal de 1988, é dever do Estado exercer a preservação da ordem pública, do patrimônio e da segurança social. Entretanto, sabe-se que, no contexto da espetacularização da violência, a norma constitucional não cumpre seu dever, de modo que a mídia, ferramenta de disseminação da informação, potencializa a narrativa dos crimes, em detrimento da realidade. Assim, há entraves que surgem a partir dessa espetacularização, como a banalização da vida e a multiplicação do comportamento violento civil.

Inicialmente, é válido ressaltar que a potencialização das narrativas criminosas contribui para trivializar a vida. Segundo a filósofa Hannah Arendt, uma ação maléfica tem a tendência de, com o passar do tempo, ser normatizada pelo corpo social – banalização do mal. Nesse sentido, a mídia comete tal banalização, de modo que, por meio da construção de narrativas polêmicas em situações criminosas, transforma os veículos de comunicação em espetáculos para seus internautas, impelindo a insensibilidade e a trivialidade com a vida. Desse modo, configura-se um cenário de instabilidade social do qual carece de medidas para que a norma constitucional brasileira seja devidamente exercida.

Além disso, é importante mencionar que a espetacularização do crime pelos meio de comunicação em massa incitam a conduta violenta. Exemplo disso é visto na série televisiva “Control-z”, na qual um personagem, por meio do anonimato, dissemina informações nas redes sociais que contribuem para um comportamento violento por parte dos alunos do Colégio Nacional. Nessa perspectiva, a mídia, ao polemizar os atos criminosos, contribui para a legitimidade de condutas violentas, não só devido à sensação de impunidade na sociedade – dada a lentidão do Poder público na resolução dos crimes-, mas também à instabilidade emocional de indivíduos que, com a falta de inserção social, heroificam infratores que adquirem repercussão nacional. Logo, a sociedade civil sente o dever de erradicar a violência, replicando-a com base numa concepção de moralidade ilusória.

Portanto, é imprescindível que haja uma intervenção estatal para a dissolução da problemática. Para tal, o Ministério da Justiça e Segurança Pública deve, por meio de campanhas e leis, proibir a disseminação de narrativas fictícias pelos meios de comunicação, além de conscientizar a população a respeito da violência civil, a fim de impedir que se perpetue um cenário instável e violento na sociedade brasileira. Essas leis multariam veículos de informação que construíssem reportagens polemizadas e difamatórias – principalmente sem averiguação dos casos -, enquanto as campanhas informariam a sociedade a respeito dos efeitos das condutas violentas realizadas pelo desejo de penalização criminal, fazendo com que a Constituição brasileira fosse respeitada e a espetacularização do crime mitigada.