Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 06/07/2020
No filme “O Abutre” o protagonista começa a trabalhar registrando filmagens de crimes e acidentes violentos para vender a veículos interessados. Não obstante, a banalização da violência feita por telejornais como uma forma de obter a atenção do espectador contribuem para aproximar a realidade brasileira da ficção. Diante desta perspectiva, cabe avaliar os fatores que favorecem esse quadro.
Um dos principais objetivos dos meios de comunicação é lucrar, principalmente através de comerciais exibidos durante a programação. Para que os bens e serviços anunciados sejam expostos para um maior número de potenciais consumidores, essa indústria usa diversas estratégias para atrair e manter sua audiência. Uma delas é transformar telejornais em programas de entretenimento, através da espetacularização da criminalidade. Logo, a televisão perde o seu papel de trazer conhecimento e informação para incitar uma reflexão nos cidadãos, e torna-se apenas um empreendimento comercial baseado no sensacionalismo.
Segundo John Locke, a mente é uma folha em branco, como uma tábula rasa. Usando esse pensamento e relacionando-o com a realidade brasileira, percebe-se que a mídia pode ter uma grande influência em uma sociedade de “tábulas rasas”. Por exemplo, ao explorar excessivamente casos criminais chocantes, a mídia cria uma atmosfera de medo que pode levar a um abismo ainda maior entre as diferentes classes sociais, já que alguns grupos associam preconceituosamente a pobreza à violência. Os grupos de maior poder aquisitivo buscam se isolar deste “mundo perigoso”, criado pela imprensa, em condomínios e ambientes privados, provocando assim, distanciamento e exclusão de camadas mais populares. Além disso, transformar crimes violentos em uma atração pode romantizar os envolvidos, influenciando outras pessoas a cometer atos semelhantes. Como exemplo disso, pode-se citar o Massacre de Columbine, onde a mídia retratou erroneamente os atiradores como vítimas de seus colegas, o que levou alguns jovens, que sofriam bullying, a se identificar com os assassinos, e em alguns casos mais extremos, fazer o mesmo.
Dado o exposto, conclui-se que é necessário uma rápida intervenção para a solução desta problemática. O Ministério da Comunicação deve impor novas normas sobre a veiculação de notícias, fazendo com que telejornais divulguem informações de forma objetiva e concisa, para evitar a vulgarização das mesmas. Além disso, o Ministério Público deve fazer campanhas que serão exibidas durante os intervalos comerciais, alertando sobre os perigos da espetacularização da violência. Assim, poderemos criar uma realidade diferente da mostrada no filme “O Abutre”, em que a vida é celebrada, e não a morte.