Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 09/07/2020

Show de crimes

Na década passada, um rapaz sequestrou sua ex-namorada e a pôs em cativeiro por dias, o que foi conhecido como Caso Eloá. A mídia reagiu de modo sensacionalista, transmitindo ao vivo todos os passos do agressor, e até manteve contato com ele via telefone. No final de quase uma semana, a ação se encerrou com a morte da adolescente e divulgação do processo como um show televisionado. Dessa forma, fica evidente a problemática da espetacularização midiática da violência, que é responsável por gerar traumas nas famílias envolvidas, além de banalizar os crimes.

Cabe ressaltar, em primeira análise, a capacidade de causar problemas à vida dos relacionados aos crimes. A exposição gerada na tentativa de se alcançar o “furo de reportagem” acaba invadindo a dor e a privacidade dos pais, filhos, cônjuges e parentes da vítima, além dela mesma. Os veículos de notícia, semelhantes à Naturalismo, corrente literária do século XIX, que mostrava a animalização do homem e a busca por seus interesses de forma desproporcional, ao agir de maneira tão descabida, são capazes de gerar danos irreversíveis e ajudam a aumentar o sofrimento e luto dos envolvidos. Portanto, torna-se indubitável que tratar crimes apenas pelo interesse de se conquistar audiência é capaz de causar males enormes à sociedade.

Em consonância, há também o efeito de trivialização do problema, que se torna algo normal aos olhos da população. Ao tratar crimes como assassinato, sequestro e roubos de forma tão banal, traz a sensação de que se está vivendo em um filme, com atores e um roteiro, no qual nada que ocorre tem consequências práticas na realidade. Tratar os delitos com tanta superficialidade mostra à população o lado menos enraizado do problema, que se perpetua e se torna “normal”. Assim como no livro de Clarice Lispector “A hora da estrela”, no qual Macabéa é ignorada em seu leito de morte, que apesar de ser vista, não é enxergada, ocorre algo semelhante com as notícias veiculadas desse modo. Logo, fica clara a adversidade vinculada à problemática, capaz de tornar a população alienada e espectadora passiva do mundo real.

Destarte, devido ao supracitado, torna-se evidente a necessidade de mudanças para superar a espetacularização da criminalidade, buscando acabar com seus imbróglios afiliados. Cabe ao Poder Legislativo, por meio de leis votadas na Câmara, adequar as reportagens criminais, no que tange a falta de empatia com a vitima e seus familiares, com intuito de tornar mais humano e menos traumático o jornalismo realizado no país, reduzindo o trauma e a banalização da violência. Assim, o Brasil poderá se tornar um país melhor para todos, mais justo e responsável.