Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 11/07/2020

Em 2008, o sequestro de Elóa foi notícia em todos os veículos de comunicação brasileiros. Durante cinco dias, os jornalistas transformaram o drama real de uma garota de quinze anos em uma superprodução cinematográfica, enquanto exibia entrevistas exclusivas com o sequestrador e atrapalhava a negociação da polícia. Esse caso, todavia, é apenas um entre tantos outros que evidenciam as consequências trágicas da espetacularização da violência pela mídia. Nesse contexto, torna-se fundamental discutir como a busca pela audiência potencializa a onda de crimes na sociedade, ao mesmo tempo que banaliza a vida das vítimas.

A priori, convém destacar os altos índices de criminalidade do país que a mídia tem transformado em entretenimento. Segundo o Atlas da Violência de 2018, a taxa de homicídio, no Brasil, é trinta vezes maior do que em toda a Europa. Nesse sentido, os meios televisivos apropriam-se das tragédias cotidianas para garantir a audiência e, ao opinar sobre os casos, influenciam movimentos de apoio e multiplicação da violência. Fato que pode ser exemplificado com uma frase do jornalista Datena, que incentiva a justiça com as próprias mãos, “Bandido bom é bandido morto”.

Ademais, o jornalismo mostra as notícias como se fossem verdadeiros filmes de ação, nos quais a vida do indivíduo envolvido parece não ser relevante e tornando-se apenas mais um dado dentro das estatísticas. Dessa forma, de acordo com a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, o objetivo dos meios de comunicação é transformar os problemas sociais, como a violência urbana, em produtos de consumo para fins lucrativos, ao passo que aliena as massas para que não percebam a gravidade da banalização do ser.

Sendo assim, tendo em vista os resultados negativos da temática supracitada, é fundamental que a mídia seja responsabilizada por seus atos. Para tanto, o Poder Legislativo deve, por meio da criação de leis especificas, assegurar que as vítimas e seus familiares possam abrir processos contra as emissoras e solicitar indenizações por uso indevido de sua imagem para fins lucrativos. O fito de tal ação não é  censurar a imprensa e, sim garantir o real papel do jornalismo na esfera pública, uma vez que cabe a essa instância promover informações, debates e reflexões na sociedade. Assim, a violência deixará de ser um espetáculo e a segurança e os sentimentos dos padecentes serão priorizados, ao invés dos espectadores, tal como devia ter ocorrido no caso Eloá.