Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 14/01/2021

Em “O Abutre”, filme estadunidense produzido pelo diretor Dan Gilroy, em 2014, mostra os limites morais e éticos da mídia e questiona até que ponto a frigidez humana pode ir, ao retratar a vida de Lou Bloom, um sujeito comum, que se torna um jornalista sensacionalista ao perceber que o mercado midiático é lucrativo de tal forma que o mesmo passa a produzir e alterar cenas de crimes e acidentes, para aumentar a dramaticidade das reportagens. Não obstante, o enredo do longa se baseia na hodierna espetacularização da violência pela mídia — que está presente nas em jornais como “Brasil Urgente” e “Cidade Alerta” —, e suas consequências — como a implantação do medo e insegurança, a associação da criminalidade à pobreza —, no contexto brasileiro.

Primordialmente, é imperioso apresentar a teoria da “Sociedade do Espetáculo”, idealizada por Guy Debord e publicada em 1967, a qual postula que a produção de imagens e a valorização da dimensão visual da comunicação é utilizada como instrumento e exercício do poder de dominação social pela mídia. Conforme Debord, é indubitável afirmar que, através da espetacularização da violência pela mídia, ela é capaz de exercer seu poder e domínio sob os espectadores ao implantar o medo e insegurança de forma apelativa e dramática.

Outrossim, no atual contexto social brasileiro, existe uma persistente associação da criminalidade à pobreza, já que jornais sensacionalistas, como “Brasil Urgente” e “Cidade Alerta”, restringem seus conteúdos a ocorrências em periferias de baixa renda. Nessa perspectiva, o sociólogo brasileiro Jessé Souza, afirma em seu livro “A Ralé Brasileira” que há uma “naturalização da miséria e do sofrimento alheio” presente no Brasil. Dessa forma, evidencia-se o ideário popular de que o crime e a violência se restringem às classes baixas.

Portanto, é mister que o Estado tome providências para superar os impasses e melhorar o quadro atual. Para que seja possível a redução do impacto das consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira, urge que o Ministério Público adjunto ao Ministério da Comunicação, a priori, elaborem a regulamentação da mídia por meio de audiência pública, em estabelecimento de diálogo com a sociedade civil, para tratar sobre tópico em destaque. A posteriori, que disponham da consultoria jurídica dos respectivos ministérios, a fim de resguardar a liberdade de imprensa e de expressão. Nessa conjuntura, mitigar as consequência da influência midiática em prol da segurança, bem estar e consciência social, a fim de distanciar a realidade brasileira da ficção em “O Abutre”, pois a regulamentação é essencial para que se prime pela moral social, já que “a massa mantém a marca, a marca mantém a mídia e a mídia controla a massa” — George Orwell.