Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 13/08/2020

Na obra “Eichmann de Jerusalém”, a filósofa judia Hanna Arendt aborda o conceito “Banalidade do Mal”, o qual faz referência ao processo de naturalização e artificialização da sociedade em relação aos acontecimentos do meio social, em razão da massificação imposta pelo modelo econômico- capitalismo. Nesse contexto, nota-se que o mal tornou-se banal na sociedade, logo há uma legitimação da violência. Tendo em vista tal panorama, percebe-se que esse conceito pode ser associado as consequências da espetacularização da violência pela mídia no cenário brasileiro.

Em primeiro lugar, observa-se que as redes midiáticas-jornais televisivos-utilizam os crimes violentos-assassinatos e estupros, como um espetáculo, pois essas notícias por serem impactantes geram maior audiência para o canal de TV. A exemplo dessa espetacularização da violência,identifica-se o programa “Cidade Alerta”, o qual transforma em espetáculo de audiência o drama de vítimas da violência.Sob esse ângulo, segundo O Coletivo Brasil de Comunicação Social o programa “Cidade Alerta” foi denunciado ao Ministério Público Federal, em razão da violação as normas da radiodifusão brasileira.Dentro dessa lógica, vale ressaltar que os espectadores são constantemente bombardeados com essas notícias violentas, logo essa banalização embasa nos indivíduos concepções preconceituosas sobre crimes e criminosos. Nesse sentindo, esses estereótipos reforçam a ideia da justiça com as próprias mãos, a qual é um risco à ordem social, pois a revolta popular em torno da justiça e punição acarreta o aumento da violência no cenário contemporâneo.

Convém lembrar ainda que a mídia promove o apelo dramático, por meio de imagens, encenações, relatos e discursos. Assim, essa comoção promove nos espectadores a sensação de ausência de justiça e de segurança .Nesse cenário, vale destacar que essa insegurança contribui para o questionamento da eficácia não só do poder público ,como também da polícia no cenário social. Ademais, conforme o Instituto Trata Brasil o maior público desses programas de TV possui a faixa etária dos 10 aos 14 anos. Desse modo, essas crianças e adolescentes que são expostas, diariamente, a essa banalização da violência são propensas a desenvolver comportamentos agressivos no âmbito familiar e escolar, pois esses jovens estão em processo de desenvolvimento intelectual e social.

Urge, portanto, que o Governo Federal em ação conjunta com o Ministério Público Federal, mediante o repasse de verba, promova maior fiscalização e punição- multas e proibição da transmissão- as emissoras que promoverem a espetacularização de casos violentos nos programas com encenações e imagens impactantes. Isso deve ocorrer, com intuito de mitigar concepções errôneas sobre os crimes e concomitantemente diminuir os índices de violência com as próprias mãos.