Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 01/09/2020

Muito se discute, em meio à pandemia de COVID-19 no Brasil, sobre a contabilização precisa na casa das centenas e unidades, sem arredondamentos, em relação ao número de vítimas devidas à doença. Justamente por causa da valorização e magnitude das perdas, a mídia mostrou-se invasiva em vários momentos, transformando acontecimentos em espetáculos a serem digeridos em rede nacional. A transformação de cenários violentos em “show business” também deve-se a normalização e consumo deste primeiro em âmbito social, como é o caso do jornal “Cidade Alerta”, conduzido pelo âncora “Datena”, o qual trata cenas de depravação e crueldade humana em um jornal de “café da tarde” em muitas casas no estado de São Paulo.

Nicolau Maquiavel, em mais de uma de suas teses filosóficas assume a maldade do ser humano, porém, culpa-o por esta. “O homem nasce com dois lobos, o bom, e o mau. Basta alimentar o lobo que deseja tornar-se”, é uma das passagens que sugerem que a depravação do homem é completamente compreensível ante a “Lei da Unidade Mental das Massas”, que prevê comportamento social semelhante justificado pela convivência e exposição a fatores iguais perante à sociedade. Portanto, o prévio contato com material delicado e, socialmente aceito, cria uma condição mental que classifica cenas de violência como comuns, portanto, desbanalizadas.

Já a “espetacularização” do sofrimento alheio é tratado de forma lúdica no universo criado na ficção “O Show de Truman”, performado pelo consagrado Jim Carrey. Na trama, Truman desde bebê é implantado em uma cidade completamente pensada e controlada por câmeras que ditam o dia a dia do protagonista, que é integralmente televisionado. Condicionado a sentir medo do mar por conta de um trauma na infância, Truman fica restrito á ilha criada pelo diretor de um show que vira febre e gira milhões de reais mensalmente. Paralelamente ao show, é nítido o mercado que gira entorno da violência cotidiana e o IBOPE conquistado pelas emissoras que conseguem exclusividades em cenas ou fatos de crimes bárbaros.

Em suma, veículos midiáticos, infelizmente, optam por noticiar fatos de forma extrapolada afim de chocar o telespectador, pensando em mantê-lo como consumidor daquele material, e para isso, muitas vezes passa por cima da fragilidade dos envolvidos em troca de cenas e momentos. Atualmente, uma das poucas saídas seria a reformulação no protocolo da produção de material televisivo, dessa forma  podando os possíveis enaltecimentos aos fatos violentos, bem como prevendo contratualmente o não uso de imagens com conteúdo delicado, muito menos em horários mais suscetíveis à presença de jovens telespectadores.