Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 15/09/2020
Na visão do sociólogo britânico Thomas Marshall, é dever do Estado agir como mantenedor dos direitos sociais, tal como o lazer. Entretanto, no hodierno cenário brasileiro, a espetacularização da violência pela mídia cria um sentimento de insegurança nos cidadãos que os impede de usufruir dessa regalia e reforça o preconceito enraizado na sociedade desde o período escravocrata. Dessa forma, alterações se fazem necessárias para reverter esse cenário.
Em primeiro lugar, é relevante ressaltar o medo gerado nos brasileiros em virtude da espetacularização da violência. Em uma realidade análoga, durante o Feudalismo, período da Idade Média, a insegurança das guerras na Europa levou os homens modernos a migrarem para grandes propriedades cercadas por muros. Nesse viés, hoje, a criação de condomínios fechados são uma consequência do temor ao crime pelos cidadãos, que buscam a segurança, distanciando-os dos ambientes coletivos destinados ao lazer, como as praças públicas. Dessa forma, o entretenimento que deve ser oferecido pelo Estado às pessoas, na visão do filósofo Thomas Marshall, é negligenciado e medidas que revertam esse cenário são emergentes.
Em segundo lugar, é válido ressaltar que a exibição de cenas violentas reforça o preconceito racial existente no Brasil, visto que os crimes tendem a ser cometidos pela camada desprivilegiada da população, ou seja, por negros de baixa renda. Segundo o sociólogo Karl Marx, o homem é produto do meio que está inserido. Essa visão explica a consequente manutenção da aversão às pessoas de pele escura na sociedade, pois, como a ênfase nos crimes por eles cometidos é grandiosa, um estereótipo negativo de que todos são criminosos e perigosos foi criado, tornando-os mais vulneráveis à situações desagradáveis, como a de injúria racial. Por fim, transformações sociais que visem a desconstrução do preconceito reforçado pela mídia no Brasil são necessárias.
Urge, portanto, intervenções que revertam os impasses supracitados. Destarte, o Poder Legislativo deve promulgar uma lei que estabeleça um limite de tempo destinado a exibição de notícias sobre crimes violentos pelos meios de comunicação, como televisões e rádios, para que o sensacionalismo seja amenizado e o medo popular de ocupar espaços públicos reduza, permitindo-os usufruir do direito ao lazer. Além disso, o Ministério da Educação deve fazer palestras semestrais em todas as escolas do país, apresentadas pelos acadêmicos de Ciências Sociais das universidades federais, que visem a destruição dos estereótipos negativos aplicados à população negra que estão enraizados na sociedade e desenvolvendo nos jovens a habilidade socioemocional da empatia. Assim, as consequências da espetacularização da violência terá fim.