Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 16/09/2020
“Quem matou Eloá?” essa pergunta é famosa e sua repercussão advém de um sequestro terminado em assassinato em outubro de 2008 em São Paulo. O propósito da pergunta, entretanto, não é descobrir a identidade do assassino, mas sim fazer uma crítica aos agentes presentes, polícia e imprensa, pela conduta sensacionalista e nada profissional. Essa reflexão põe em pauta o poder da mídia e o valor da vida humana. Afinal, quais as consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira?
Em primeira análise, sabe-se que a atualidade é marcada pelo uso constante de internet, e que essa tecnologia é uma facilitadora de conexões. Contudo, a dualidade real/virtual tem afetado o cotidiano social de uma forma que as relações interpessoais ficaram mais mecânicas. Discorrendo sobre essa situação, o filósofo contemporâneo Zygmunt Bauman cunhou o termo “modernidade líquida”, a fim de definir o caráter imediatista, consumista e instável dos dias atuais. O que demonstra uma desvalorização dos laços humanos em prol da satisfação imediata.
Diante disso, pode-se entender que a maneira como a televisão e demais mídias visuais buscam prender a atenção do público, transformou-se. Para ilustrar, o filme “O Abutre”, de 2015, aborda o tema ao retratar um repórter cujo trabalho consiste em capturar em vídeo cenas trágicas e violentas da vida real, sempre em favor do desejo dos telespectadores em consumirem esse tipo de conteúdo, sem se importar com as vidas envolvidas. Fora da realidade as coisas não parecem mudar, afinal, mais de dez anos depois do caso Eloá, muitos programas lucram com reportagens sangrentas.
Portanto, é urgente uma intervenção nesse cenário. Cabe aos poderes Legislativo e Executivo, por meio de uma legislação mais severa, elaborar e por em vigência leis que demandem das equipes de segurança urbana que ajam de maneira a preservar o maior número de vidas possível e que puna as emissoras que transformarem tragédias em espetáculos, a fim de manter o senso de humanidade no povo brasileiro. Dessa forma, poder-se-á evitar as consequências de vender violência como produto de mídia.