Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 22/09/2020

No filme “O Abutre” (2014), o personagem Louis Bloom é um jornalista criminal independente, se dedicando a filmar crimes, acidentes e tragédias urbanas para vender o material à emissoras interessadas. Na trama, as tragédias e acidentes são explorados como gerador de audiência, uma vez que os telespectadores se atraem pela violência real, muito mais chocante que a fictícia. Fora da ficção, é possível observar que a mídia brasileira já apresentou e, ainda, apresenta episódios onde a violência é espetacularizada. Acarretando, não só, consequências no processo dos casos, como intrometimento na investigação. Mas também, a disseminação de um medo generalizado na população.

Em primeiro plano, o envolvimento das mídias em crimes é algo que pode ser evidenciado com facilidade na realidade brasileira. No “Caso Eloá Cristina”, no qual duas adolescentes foram vítimas de sequestro em cárcere privado, a imprensa participou de toda a investigação de maneira irresponsável. Jornalistas e apresentadores de televisão entraram em contato com o sequestrador e vítimas, agindo como se fossem policiais encarregados da investigação. A apresentadora Sônia Abrão, por exemplo, passou mais de 30 minutos em uma ligação ao vivo, televisionada para todo o país, com o sequestrador. Levando não só ao fim trágico do caso, mas transformando uma tragédia em um reality show.

Ademais, o “Mundo líquido”, apresentando pelo filósofo Zygmunt Bauman, é uma irrealidade dentro da qual a sociedade está mergulhada, um mundo em que as ameaças nunca se configuram reais, mas que são mostradas cotidianamente pela mídia. As pessoas passam a considerar qualquer informação uma ameaça, sem ao menos constatar a veracidade das informações distribuídas. Esse sentimento de insegurança não provém somente da carência de proteção, mas sim da falta de clareza dos fatos.

Torna-se evidente, portanto, que existem consequências da espetacularização da mídia perante situações de violência, sendo necessário a criação de medidas para a resolução dos problemas. Cabe ao Governo Federal, por intermédio do Ministério da Comunicação, a criação de leis que vetem o excesso do envolvimento da mídia em episódios de crimes, assegurando não só, o andamento correto das investigações, mas protegendo vítimas e seus familiares.