Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 23/09/2020
Em outubro de 2008, Eloá Cristina, de apenas quinze anos, foi mantida sob cárcere privado durante 100 horas, e morta pelo seu ex-namorado Lidemberg Fernandes. O Caso Eloá, como ficou conhecido o episódio, foi televisionado pela mídia brasileira que transformou o sofrimento da menina em um grande espetáculo. Semelhante a isso, pode-se observar diariamente a espetacularização da mídia brasileira em casos de violência, podendo gerar consequências como a banalização dessas ações, e a propagação de ideais violentos.
Nos quatro dias em que o Caso Eloá se desenrolou, as manchetes dos principais jornais foram estampadas por frases que romantizavam as ações de Lidemberg contra Eloá, alegando que havia sido um “crime de amor” e banalizando todas as crueldades sofridas pela garota nas mãos do ex-namorado. Nesse sentido, percebe-se como a espetacularização da mídia em torno desse caso foi de extrema irresponsabilidade, promovendo a banalização de toda a situação, além de naturalizar e tentar justificar a violência contra a mulher.
Ademais, o sensacionalismo midiático em torno de casos de violência pode contribuir para espalhar ideais intolerantes e violentos, colaborando para a propagação e naturalização dessas ações. Nessa perspectiva, é possível tomar-se como exemplo a situação do Rio de Janeiro, uma cidade que é conhecida como uma vitrine de Brasil e onde se localiza a sede da maior emissora do país, a rede Globo, que, ao divulgar com tanto aprofundamento e detalhes sobre crimes que ocorrem em solo carioca, ajudam a propagar essas ideias para que facções de outros estados as absorvam e as ponham em prática. Dessa forma, evidencia-se como a mídia tem um papel fundamental no alastramento da violência no país.
Nessa conjuntura, faz-se necessário que o Ministério das Comunicações, em conjunto com o Conselho Federal de Jornalismo (FENAJ) , promovam palestras sobre o sensacionalismo midiático para os profissionais dessa área, afim de que os mesmos tenham mais responsabilidade na hora de veicular suas matérias. Além disso, é preciso que o Ministério da Educação (MEC), também em parceira com o FENAJ, inclua na grade curricular do curso de jornalismo a matéria de ética jornalística, com o objetivo de ensinar os futuros profissionais a como exercer sua função de forma mais consciente.