Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 23/09/2020

Durante o Império Romano, os líderes políticos adotaram a política do pão e circo, a qual consistia na organização de episódios violentos e distribuição de alimentos para a população, assim, ela promoveu a banalização da violência, já que essa era considerada apenas uma distração. De forma análoga à esse cenário, a espetacularização da violência promovida pela mídia brasileira tem reflexos diretos na sociedade, visto que causa a naturalização de situações violentas e favorece o desenvolvimento de indivíduos agressivos. Diante disso, medidas devem ser tomadas para que esse cenário seja revertido.

Em primeiro lugar, é preciso considerar a naturalização das situações violentas que ocorre devido à exploração excessiva da violência. Segundo a filósofa Hannah Arendt, a sociedade tende a banalizar o mal difundido de forma corriqueira, nessa perspectiva, pela grande quantidade de informações sensacionalistas disponibilizadas para a população, as ações em questão, por mais graves que sejam, são tratadas com normalidade. Além disso, a necessidade de criar uma notícia que choque os leitores é tão grande que, muitas vezes, a essência do jornalismo é perdida, à exemplo da imagem da criança síria que foi encontrada na praia, a qual foi modificada antes de ser publicada.

Outrossim, a relevante visibilidade que as ações agressivas tem na mídia, assim como o músico Roberto Silva retrata na música “Jornal da Morte”, incentiva os indivíduos a imitar um crime disponibilizado em uma imagem ou vídeo, a exemplo do atentado à escola em Suzano, o qual apresentava diversas semelhanças com o crime cometido em Columbine. Dessa forma, é visível que esse “palco” criado para a violência pelos meios midiáticos precisa ser controlado, já que serve de motivação para a realização de novos crimes.

Dessa forma, é possível perceber que a naturalização da violência e o favorecimento do desenvolvimento de indivíduos violentos são consequências da espetacularização da violência promovida pela mídia. Sendo assim, é preciso que o Governo Federal, aliado ao Ministério da Comunicação, contenha o excesso de notícias que exploram os atos de brutalidade, com a criação de um regulamento da comunicação que limite a veiculação de imagens de episódios agressivos em canais abertos e garanta o cumprimento da ética jornalística, a fim de evitar a naturalização da violência. Além disso, as plataformas digitais devem desenvolver mecanismos que filtrem os conteúdos disponibilizados em suas plataformas, para que o acesso à esse tipo de informação seja melhor controlado. Somente assim as consequências da espetacularização da violência serão amenizadas.