Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 23/09/2020

No dia 17 de fevereiro de 2020, a emissora de televisão brasileira “Record TV”, durante a exibição do programa “Cidade Alerta”, anunciou ao vivo à uma mãe, enquanto era entrevistada, que sua filha havia sido assassinada e, após receber a notícia, a mulher desmaiou. O caso chamou atenção nas redes sociais e levantou a discussão sobre a espetacularização da violência pela mídia brasileira, a qual traz diversas consequências negativas, como a banalização da morte e danos psicológicos aos envolvidos.

Em primeira análise, durante o período de quarentena no Brasil, realizado a fim de desacelerar a pandemia do covid-19, o número de denúncias de violência contra a mulher aumentaram em 40%, de acordo com a revista “IstoÉ”. Contudo, apesar do consequente aumento de casos de feminicídio, poucas medidas foram postas em prática por parte do Estado contra o problema, o que se deve por conta da “naturalização” da morte, segundo a assistente social Clairi Madai. Essa banalização é fruto da forma como a mídia difunde exacerbadamente situações de assassinatos, visto que programas policialescos, os quais transmitem esse tipo de crime, são líderes em audiência, com base no site “Carta Capital”. Dessa forma, a divulgação da morte como algo comum dificulta a criação de alternativas de diminuição dos crimes contra a vida, contribuindo com a ocorrência de homicídios.

Ademais, por serem considerados jornalísticos, os programas policialescos no Brasil podem ser exibidos sem restrições de cenas violentas, muitas vezes de forma não autorizada, como se deu com uma menina que foi estuprada e teve 20 minutos do ato transmitidos no “TV Cidade”. Por conta dessa exibição inadequada, várias pessoas que foram expostas nesses programas têm a saúde mental afetada, desenvolvendo doenças psicológicas como ansiedade e depressão ou agravando um quadro clínico já existente, como ocorreu com o soldado Ailton Soares, que tinha depressão e se suicidou após ser xingado em um telejornal. Assim, em busca de um elevado número de espectadores, pode-se analisar que a mídia brasileira não leva em consideração os efeitos psicológicos prejudiciais do sensacionalismo ligado a violência, violando o direito de imagem.

Em suma, verifica-se a necessidade da criação de medidas que possibilitem a diminuição dos efeitos negativos da espetacularização da violência pela mídia brasileira. Dessa forma, a Anatel deve diminuir o tempo de exibição de casos de homicídio em programas policialescos, estabelecendo a transmissão máxima de 10 minutos, a fim de contribuir com a redução da banalização da morte. Além disso, a Anatel precisa também instaurar a restrição de cenas violentas nesses programas, através da criação de um sistema que analise as cenas que irão ao ar, permitindo ou não a exibição, com finalidade de garantir o direito de imagem.