Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 29/12/2020

Sob uma perspectiva marxista, pode-se considerar que a espetacularização da violência funciona como uma forma de controle da classe dominante sobre a classe oprimida através do medo e do uso da força. Essa relação de poder pressupõe uma violência cada vez maior e mais arbitrária, porém, justificada pela crença da chamada “sociedade da impunidade”, construída em um ambiente que se molda cada vez mais sobre a barbárie.

A apresentação de programas que expõem a violência de forma contínua e explícita em horário comercial e na televisão aberta vai contra, primeiramente, o Estatuto da Criança e do Adolescente, que prevê que esses jovens não devem ser expostos à esse tipo de conteúdo. Simultaneamente, as falas proferidas pelos apresentadores, por vezes, ferem o princípio da inocência, pervisto na Constituição de 1988. Da mesma forma, essa luta de narrativas transmitidas em tempo real sem uma devida apuração dos fatos faz com que narrativas diferentes da verdade sejam construídas e, assim, reforcem estereótipos de raça, gênero e classe social, estereótipos esses que alimentam o fenômeno do encarceramento em massa – bem descrito por Juliana Borges.

Essa exposição provoca a insensibilidade na população, que se habitua com o que é mostrado, enquanto, também, causa apreensão e o medo, que facilitam  a legitimação da cólera pública e policial. Esse furor causado culmina com o aumento da violência policial – que é aplaudida após a visão maniqueísta instaurada pelos programas, acentuando a dicotomia entre o que é bom e e o que é mau – e com a ocorrência de linchamentos públicos. Como mencionado anteriormente, a arbitrariedade presente nessa exposição faz com que diversos indivíduos sejam prejudicados por falsas acusações. A aparente impunidade brasileira, por fim, é um problema burocrático que é evidenciado quando posto ao lado das informações transmitidas de forma instantânea, que não seguem o tempo da justiça, o que corrobora com a busca pela justiça popular e pela “polícia salvadora”, que aumentam a barbárie nas comunidades.

Portanto, parte-se do pressuposto de que a imprensa teria como dever a elevação do caráter civilizado da sociedade, devendo, assim, incentivar a formação dos cidadãos, junto ao Ministério da Justiça e da Segurança Pública, que deve melhor capacitar os profissionais da segurança, evitando cada vez mais o uso da violência, para que o medo por ela gerado não possa ser usado como uma forma de controlar a população em geral. Para isso, faz-se aprazível a restrição de programas desse cunho em horário comercial ou sua extinção por completo, substituindo-os por uma programação jornalística que tem como foco a exibição de fatos devidamente apurados e livres de sensacionalismo.