Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 03/11/2020

O papel negativo da mídia pôde ser observado no famoso caso Eloá, no qual a jornalista Sônia Abrão interferiu na atividade policial em curso e entrevistou o assassino e a vítima ao vivo. Nesse sentido, percebe-se a atuação negligente da imprensa que, enquanto formadora de opiniões e condutas, promove uma naturalização da violência, bem como pode incitar a reprodução de atos dessa natureza.

A princípio, é indiscutível a influência exercida pela mídia sob a mente das pessoas. Como afirma a filósofa Hannah Arendt, a incapacidade de refletir sobre os próprios atos promove a crueldade. Ao ampliar tal afirmação, infere-se que esse ator social, ao transformar a violência em espetáculo transmitido às pessoas, não se preocupa com o impacto causado ao público, seja por meio do pânico ou pela naturalização do conteúdo. Na incessante busca pela audiência, a reflexão de Arendt é posta em segundo plano por esse meio de comunicação.

Ademais, preocupa-se com o efeito psicológico que tal espetacularização provoca em indivíduos com potencial de risco.Tal como está previsto no Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, o suicídio, por exemplo, não pode ser abordado diretamente, haja vista os resultados negativos, em consequência, que o tema pode desencadear. Nessa lógica, a exposição exagerada de eventos de natureza violenta pode, igualmente, servir como gatilho para sujeitos já propensos a cometê-los, bem como servir de instrução a eles.

Portanto, o Ministério das Comunicações deve se encarregar de restringir e filtrar os conteúdos transmitidos pela imprensa, sem ferir a liberdade constitucional dessa, por meio do estabelecimento de diretrizes acerca do assunto das notícias e como elas devem ser retratadas, a exemplo da não divulgação de imagens, vídeos ou ligações explícitas relacionadas  às cenas do ato violento. Espera-se, com isso, controlar a espetacularização da violência promovida, bem como amenizar os seus efeitos na sociedade.