Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 26/10/2020

Marcada pelo sequestro e morte de uma jovem, a trágica história de Eloá Cristina foi amplamente repercutida pela mídia brasileira, o que prejudicou as negociações entre policiais e o criminoso, fato este que corroborou com o assassinato da vítima. Infelizmente, tal caso não se destoa da realidade hodierna nacional, marcada pela incessante espetacularização da violência pela mídia e suas catastróficas consequências. Tais problemáticas se dão pela busca por notícias rápidas e que acarretam caótica crença de normalidade mesmo frente aos casos mais bárbaros.

Mormente, faz-se notória a incessante busca por informações de forma imediata. Neste ínterim, evidencia-se a teoria do célebre filósofo polonês, Zygmunt Bauman, o qual afirmava que a modernidade caracteriza-se pelo imediatismo e a busca por ações e efeitos rápidos. Tais fatos se refletem na exigência de rapidez nos processos informativos, os quais promovem atração por manchetes e chamadas tendenciosas, predominantemente relacionadas a casos de violência e crimes brutais. Ademais, vê-se que o interesse em aproximar o telespectador aos meios de informação promove a aparição de sensacionalismos e parcialidades frente à noticiação de crimes, recursos usados com o intuito de promover audiência e que culminam em severas consequências aos brasileiros.

Outrossim, tornam-se evidentes as catastróficas consequências da banalização de violências pela mídia. Nesse contexto, observa-se a famosa política romana do “Pão e Circo”, que utilizava-se de espetáculos e eventos bárbaros com intuito de atrair a população, provocando a apreciação e perspectiva de normalidade mesmo frente a atitudes cruéis. Desta forma, nota-se que, lamentavelmente, tal problemática reflete-se na realidade nacional, que demostra majoritária neutralização quando em presença de notícias repulsivas, situação esta que advém da abundância de noticiários chocantes no meio midiático, os quais fazem parecer insignificantes casos de hostilidade, roubo, assassinato e outras problemáticas.

Mediante tais fatos, vê-se a extrema urgência de medidas combativas a tal óbice. Destarte, necessita-se deliberar a fim de combater a espetacularização da violência na mídia e suas consequências. Para tanto, cabe ao Parlamento Brasileiro em parceria com o poder público a criação de uma Legislação Reguladora da Comunicação, que promova por meio de fiscalização a punição à plataformas midiáticas que ultrapassem os limites da liberdade de expressão, desrespeitando os Direitos Humanos e promovendo a banalização da violência. Somente desta forma, atos hediondos deixarão de serem tratados como rotineiros e provedores de audiência, como ocorrido no caso Eloá.