Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 04/12/2020

Durante o Império Romano, os gladiadores - que, em sua maioria, eram presos de guerra - batalhavam quase diariamente, como forma de entretenimento para os cidadãos romanos. Embora obsoleto, tal cenário permanece na contemporaneidade, haja vista a espetacularização da violência pela mídia brasileira e suas consequências. Diante disso, é fundamental discutir acerca da banalização da vida e do estímulo ao sentimento de impunidade na população para desconstruir essa realidade tupiniquim.

Observa-se, em primeira instância, que as mídias comunicativas proporcionam a trivialização da vida e da privacidade dos envolvidos, uma vez que promovem a superexposição dos casos, em busca de audiência. Sob esse viés, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, as “Instituições Zumbis” - pautadas na falta de essência - perderam suas funções sociais, mas mantiveram suas formas. Nessa perspectiva, os meios de comunicação, que deveriam informar e alertar a população de forma consciente e responsável, apresentam-se como sensacionalistas e invasivos, a fim de atrair público, visto que desumanizam - e transformam em produto - os familiares, as vítimas e, até mesmo, os criminosos. A exemplo disso, uma mãe desmaiou ao vivo na rede televisiva Record, após o apresentador divulgar, sem aviso prévio, que sua filha havia sido assassinada pelo namorado.

Deve-se abordar, ainda, que a espetacularização da violência pela mídia desenvolve na população, de modo geral, o sentimento de impunidade e estimula a justiça com as próprias mãos. De maneira análoga, o código babilônico de Hamurabi determinava, de forma legal, que, quem cometesse um crime, deveria ser punido com um sofrimento de igual proporção. Nesse âmbito, os meios comunicativos, ao abordar a violência como cotidiano e destacar a necessidade de condenação aos criminosos, incentivam a vingança, uma vez que tais ações estimulam o sentimento de injustiça na população, que é bombardeada diariamente com notícias de violência. Como consequência, os cidadãos reagem aos atos criminosos através da repetição desses, o que transforma-se em um ciclo vicioso e gera uma sociedade moldada na agressividade.

É urgente, portanto, que o Ministério das Comunicações - principal responsável por fiscalizar o sistema midiático brasileiro - restrinja, por meio do supervisionamento das notícias televisionadas, os conteúdos expostos e sua forma de divulgação, além de minimizar a propagação de imagens e vídeos que exibem a violência, a fim de conter a sensacionalização e a banalização da vida. Ademais, deverá, junto ao Ministério da Educação, alertar os jovens, sobretudo dos ensinos médios públicos e particulares, acerca dos perigos da normalização da criminalidade e da busca por vingança, por meio de palestras conscientizadoras, com o intuito de reduzir, a longo prazo, os efeitos da espetacularização da violência.