Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 30/12/2020

“Um caloroso espetáculo”

No Filme “Coringa”, a personagem Arthur foi convidada para uma entrevista a um programa televisivo, não por sua relevância no campo artístico, e sim, para ser ridicularizado a fim de divertir a platéia e a audiência. Como forma de protesto, e por ser uma pessoa desequilibrada, o protagonista deu um trágico fim ao programa. Assim como na ficção, a mídia sensacionalista espetaculariza a violência em uma tentativa de envolver o público, o que gera uma espécie de culto a atos bárbaros.

Em primeira análise, é preciso destacar como o jornalismo policial reporta crimes com o objetivo de impactar os telespectadores, mesmo que isso fira a diginadade e os direitos humanos. Nesse sentido, o apresentador Datena, do programa “Cidade Alerta” não demonstrou nenhuma sensibilidade ao noticiar , ao vivo, a uma mãe o assassinato de sua filha. Além disso, tais programas se valem de entrevistar em tom itimidador ou zombeteiro os suspeitos detidos, cuja intenção principal não é informar, e sim, causar revolta ou risadas em quem assiste. Dessa forma, dá-se um hiperfoco à violência, trazendo-a para o cotidiano, influenciando a opinião pública.

Em segunda análise, é importante ressaltar de que formas o jornalismo midíatico afeta  a sociedade como um todo. Nesse sentido, a superexposição a situações violentas produzem o medo generalizado. De acordo com a filósofa política Hannah Arendt, situações extremas levam à banalidade do mal, que consiste na naturalização de ações violentas por pessoas comuns. Dessa forma, influenciadas pela programação apelativa e pelo discurso do caos, cidadãos considerados de bem, naturalizam situações trágicas e até se divertem com situações de morte ou tortura, como sugere o quadro de um dos programas do gênero,  intitulado “CPF cancelado”.

Portanto, torna-se evidente a parcela de responsabilidade da mídia brasileira que se aproveita da desordem social para ter audiência a todo custo. Nesse sentido,  a fim de minimizar os impactos negativos sobre a sociedade, é preciso que a Secretaria de Cultura regulamente e classifique esses programas por faixa etária, além de estabelecer horários em que eles não estejam acessíveis a menores de 16 anos. Ademais, as produções midíadicas, cujo teor informativo contenha mais do que 60% de tempo de programação destinados a mostrar conteúdo violento, devem notificar o telespectador no começo do programa. Dessa forma, a população se conscientizará do tipo de entretenimento que está consumindo e será levada a refletir se deseja ser influenciada por um caloroso espetáculo, cujo objetivo é “ver o circo pegar fogo”.