Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 14/01/2021
O filme “Spotlight”, aclamado pela crítica, retrata a história de uma investigação jornalística de abusos de crianças por membros da igreja católica. O longa-metragem demonstra, em sua trama, a importância da mídia no processo de investigação de crimes sociais. Entretanto, não é sempre que esse canal de comunicação consegue efetivar seu papel, haja vista que as consequências geradas pela espetacularização de casos de violência nos meios de comunicação. Esse processo ocorre, sobretudo, devido à mercantilização da notícia somada ao desejo do homem pela novidade.
Nesse sentido, é importante ressaltar, em primeiro plano, que, assim como outras esferas da sociedade, a mídia é regida pelo modelo capitalista. Sob essa perspectiva, o documentário “O Mercado de Notícias” de Jorge Furtado, demonstra, por meio de diversas entrevistas, que as notícias são reinterpretadas e divulgadas, muitas vezes sem o compromisso com a verdade, com o objetivo de causarem curiosidade e permiterem o lucro das empresas jornalísticas. Dessa forma, as manipulações midiáticas de casos de violência podem gerar, por exemplo, um sentimento de insegurança social no povo, acarretando em medo e pavor público generalizado, como aconteceu nos casos da divulgação das rebeliões nos presídios do Norte e Nordeste em 2016.
Ademais, outro fator que corrobora o quadro atual é o proceso inerente de curiosidade que permeia o imaginário humano. Acerca dessa premissa, o filósofo Schopenhauer, em sua teoria, defende que os homens são movidos pelo desejo de conhecer e experimentar novas coisas. Nesse viés, os meios de comunicação se utilizam dessa característíca humana para poderem capturar a atenção dos telespectadores por meio de reportagem fantasiosas. Tal fato é ratificado ao observar uma pesquisa realizada pela Universidade de Princeton que demonstrou que notícias violentas são as mais consumidas pelos telespectadores e, também, as que mais causam transtornos de ansiedade e depressão.
Fica claro, portanto, que essa problemática encontra barreiras para sua resolução no sistema econômico e nas características humanas. Urge, logo, o Ministério Público (MP), por meio de ações públicas, coiba e multe os canais de comunicação que utilizarem da espetacularização dos casos de violência para crescerem a audiência. Tais ações deverem ser, primeiramente, debatidas por um grupo de especialistas independentens, como advogados, jornalistas e comunicólogos, com o fito de analisar os problemas nas noticias antes da proposição dos processos judiciais. Além disso, o MP, em parceria com a mídia, deve divulgar canais de denúncia, com o fito de ouvir a população e analisar os fatos. Feito isso, o papel democrático da mídia, como evidenciado em “Spotlight”, poderá ser exercido.