Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 28/06/2021
O conceito de modernidade líquida, proposto pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman, estabelece que com a globalização e o avanço das tecnologias digitais as relações humanas passam a se organizar em volta da instantaneidade. Dessa forma, com esse novo padrão de comportamento, o jornalismo sofreu mudanças profundas, em que a busca por audiência e engajamento proporcionou várias matérias e programas de notícias que se baseiam no sensacionalismo. Sendo assim, nota-se uma realidade em que a violência e o sofrimento das pessoas viram produtos que são vendidos pelos orgãos de imprensa, que passam a deixar de lado seu papel social de proporcionar informação e reflexão.
Nesse contexto, casos como a transmissão do suicídio de uma jovem de 16 anos pelo programa “Aqui Agora” da emissora SBT em 1993 exemplificam uma busca desesperada por audiência, que acaba por transformar um assunto sério em uma “corriqueira atração”. Desse modo, com casos como esse, os orgãos de imprensa usam sua função de formadores de opinião de uma maneira prejudicial à população e colaboram na trivialização da violência e da morte. Assim, proporciona-se o desenvolvimento de uma audiência que confunde dor e sofrimento com entretenimento, auxiliando na criação de uma sociedade com sérios problemas de empatia e de valores ao serem coagidos por aquilo que assistem diariamente.
Isso dito, pode-se fazer um paralelo com os livros “Jogos Vorazes”, em que pessoas são escolhidas para lutarem até a morte, com a finalidade de satisfazerem e entreterem os mais ricos daquele universo fictício, usando a dor desses indivíduos e de seus familiares como espetáculo. Sob esse viés, a falta de sensibilidade com as vítimas e principalmente com suas famílias quando ocorrem tragédias são extremamente comuns no mundo real. Dessarte, casos como a filmagem de funerais e da angústia e desespero de pessoas descobrindo a perda de entes queridos fazem com que o luto e a dor sejam usados para atrair visualizações e espectadores, lucrando em cima do sofrimento dos outros.
Em vista disso, os diferentes veículos de imprensa devem se comprometer a controlar esse sensacionalismo tão presente nas televisões e mídias digitais. Para isso, essas variadas empresas podem criar acordos conjuntos vizando uma autoregulação quanto ao problema, assinando acordos coletivos que caso não cumpridos gerem multas aos infratores. Ou seja, aqueles que fizessem notícias sem sensibilidade, como aquelas que espetacularizam crimes, suicídios ou o sofrimento e luto das pessoas não teriam mais os lucros que viriam com a audiência que ganhariam. Isso feito, busca-se uma realidade em que a influência exercida por esses meios midiáticos seja edificante e exemplar, diminuindo e controlando o avanço do sensacionalismo e da falta de empatia nas notícias.