Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 08/09/2021

Na Roma antiga, os cidadãos romanos, alimentados pela política do “pão e circo”, normatizavam as agressões e, logo, transformava em divertimento um problema real da cidade: a violência. Não obstante, o avanço das mídias sociais ampliaram substancialmente a sociedade do espetáculo do império romano, posto que a espetacularização da violência exposta nesses veículos distorce a evolução e desenvolvimento temporal do homem. Nesse ínterim, o individualismo preponderante nas práticas jornalísticas, bem como a naturalização da violência pelo corpo social são aspectos motivadores desse cenário.

Deve-se pontuar, de início, que o sensacionalismo do jornal brasileiro decorre de posturas individuais, tendo em vista que a atuação enaltece o interesse privado. Conforme o sociólogo Zygmunt Bauman, as relações no mundo contemporâneo são fragilizadas, uma vez que os indivíduos priorizam o desenvolvimento pessoal em detrimento de ações coletivas. Sob esse viés, a intencionalidade de empresas jornalísticas não é, somente, manter a população informada em tempo real, mas, sim, estar à frente dos concorrentes e garantir o máximo de audiência, o que irá permitir maior rentabilidade de anúncios. Com efeito, a produção de conteúdo ocorre de modo desmedido, pois a difusão de notícias a qualquer custo e sem um reflexo coletivo corrompe a dignidade dos envolvidos.

Por conseguinte, a sociedade naturaliza a violência exposta e, logo, perde a capacidade crítica diante de problemas reais. Segundo a  filósofa Hannah Arendt, os indivíduos tendem a banalizar o mal difundido corriqueiramente, gerando passividade social. Com isso, a “sociedade do espetáculo” alimenta o jornalismo sensacionalista, visto que consomem esses conteúdos sem uma reflexão prévia e como forma de entretenimento, tal como corria na Roma antiga. Nesse sentido, persiste um ciclo intermitente: o povo aceita e consome a violência exposta e, assim, a mídia continua produzindo o “espetáculo”.

Portanto, é notório  que a espetacularização da violência pelas mídias é um mal social a ser superado. Para tanto, cabe ao poder legislativo impor limites ao sensacionalismo jornalístico, por meio de leis específicas que multem empresas midiáticas que atentem contra a dignidade dos envolvidos em situações de violência ou vulnerabilidade, a fim de construir um jornalismo transparente em prol do coletivo. Ainda, cabe às escolas, instituições responsáveis pela formação de indivíduos autônomos, a tarefa de incentivar o senso crítico do corpo social, mediante palestras e atividade lúdicas que enalteçam o questionamento, de modo a ampliar a visão cidadã diante de fatos problemáticos e sensíveis. Destarte, as mídias sociais não serão palco de espetáculo como o coliseu foi na Roma antiga.