Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 16/11/2021

A guilhotina foi amplamente utilizada durante a Revolução Francesa para decapitar opositores ao movimento. Essas decapitações eram, em geral, em praças públicas e eram verdadeiros eventos, pois fascinavam multidões por toda a França. No Brasil atual, acontece uma semelhante espetacularização da violência: os veículos midiáticos, a fim de obter audiência, compartilham imagens e vídeos de crimes e tragédias quase sem pudor, atraindo espectadores. Tal atitude gera consequências sociais e, para minimizá-las, é mister analisar a transformação da violência em entretenimento e a eternização das vítimas aos acontecimentos.

Nesse contexto, é notória a subversão da violência em produto de entretenimento. Seguindo esse raciocínio, para a filósofa judia Hannah Arendt, as manifestações violentas deixam de ser horrorizadas pela maioria ao se tornarem frequentes. Dessa forma, ao noticiar crimes e tragédias com o uso de recursos apelativos, como imagens não censuradas ao vivo, a mídia brasileira - especialmente a televisiva - contribui para a banalização da violência, assim como teoriza Arendt, e, consequentemente, transforma essa pauta em entretenimento. Exemplo disso foi a cobertura do acidente aéreo da cantora Marília Mendonça, que teve sua morte anunciada minutos depois da retirada de seu corpo dos destroços da aeronave diante das câmeras de diversos telejornais. Logo, urge uma mudança de postura midiática diante dessa problemática hostil.

Ademais, outro desdobramento da espetacularização da violência é a eternização das vítimas aos episódios. Consoante a essa lógica, com a rapidez e o alcance da internet, as vítimas das violências noticiadas são eternizadas aos crimes e/ou tragédias e torna-se quase impossível desfazer essa desassociação, pois o que permanece na memória dos espectadores é, na grande maioria das vezes, ligado ao acontecido. Isso, além de ser um desrespeito a memória das vítimas póstumas, pode trazer complicações psicossociais àquelas que sobreviveram, como o desenvolvimento de quadros clínicos de depressão. Assim, é imperioso a conscientização dos indivíduos acerca dessa questão.

Destarte, fica claro que a espetacularização midiática tem consequências ao coletivo e essas precisam ser mitigadas. Para isso, a mídia brasileira - sobretudo a televisiva - deve, por meio de uma alteração no modo de apresentação jornalística, reformular a postura de suas reportagens, com o objetivo de não divulgar conteúdos chocantes em horário nobre. Não obstante, a sociedade civil, por intermédio de debates em redes sociais, deve refletir e discorrer sobre esse assunto, com a finalidade de cobrar da mídia maior sensibilidade ao informar os ocorridos, para que a memória das vítimas seja preservada. Dessa forma, será possível minimizar as consequências desse problema.