Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 26/03/2022
A agrilhoação de Prometeu. O arrancar de olhos de Édipo. O cadáver de Heitor a-tado ao cavalo de Aquiles. Devido ao seu caráter disruptivo, o fenômeno da violên-cia sempre causou um movimento que parte da curiosidade ao espanto. Dentre as estratégias utilizadas pela mídia, a espetacularização da violência não passou des-percebida. Diante desse contexto, é válido pontuar a importância da transmissão adequada da notícia e os efeitos que sua inadequação provocam na sociedade.
Pode-se afirmar é evidente que, dado o atual patamar de globalização, é funda-mental que haja uma difusão reta e equilibrada da informação, sob pena de uma percepção distorcida da realidade. Isso acontece porque, como já foi estudado pelo célebre crítico literário Northrop Frye, o noticiário é um dos principais expoentes da formação do imaginário coletivo e, portanto, causa profundas mobilizações psíqui-cas dentro da sociedade.
Convém pontuar, ainda, que um desequilíbrio na redação da notícia leva a uma compreensão equivocada dos fatos. Parafraseando G. K. Chesterton, não foi o mundo que piorou, as coberturas jornalísticas é que melhoraram muito. Com efei-to, a já mencionada espetacularização da violência leva a uma falsa percepção da realidade. É devido a isso que, por exemplo, uma amálgama de discussões acerca da violência no Rio de Janeiro foi gerada quando Cláudio Marsili, médico carioca, foi baleado na frente de sua clínica. Todavia, naquele mesmo dia, cerca de 140 pes-soas, apenas no Bra-sil, faleceram de maneira semelhante – segundo dados do G1. É evidente, pois, que, devido à desinformação, a criminalidade do Rio, amplificada pela mídia, é superestimada pela sociedade, que desconhece suas estatísticas quando comparadas a outros estados e momentos históricos.
Entende-se, portanto, que é necessário haver – mediante ação de empresas jor-nalísticas como a Folha de São Paulo ou o Estadão – uma ampliação da qualidade e seriedade da redação de notícias, a qual deve acontecer por meio da entrega de es-tatísticas que apontem explicitamente a movimentação numérica do fenômeno a-través das décadas e entre as regiões do país, a fim de integrar uma informação completa e que forneça à população uma análise concreta da realidade.