Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira

Enviada em 31/03/2023

Em 2021 as atrocidades cometidas por um indivíduo denominado Lázaro foram amplamente televisionadas, e as famílias brasileiras puderam acompanhar até mesmo a perseguição policial. Situações como essa, em que os atos violentos se tornam verdadeiros espetáculos, não são raras no país, gerando certa glorificação dos criminosos e naturalizando suas crueldades. Cabe, então, tendo em vista a sua seriedade, discutir o problema.

Deve-se entender, primeiramente, que a exibição exacerbada de atitudes bárbaras transforma seus praticantes quase em celebridades. Isso porque a intensa aparição na mídia cria um interesse popular pelos executores, alimentando a produção crescente de conteúdos de entretenimento relacionados a eles, sendo os inúmeros livros, filmes e documentário acerca das presidiárias Suzane von Richthofen e Elize Matsunaga, um exemplo. Assim, o apelo midiático acaba por dotar de centralidade pessoas que agiram de forma repulsiva.

Além disso, cabe destacar a normalização das crueldades gerada pelo contato constante com elas. Esse processo acontece porque os indivíduos acabam sendo dessensibilizados perante a frequência com que são expostos aos atos violentos, os quais – conforme a teoria da banalidade do mal, cunhada pela filósofa Hannah Arendt – deixam de causar espanto e revolta, tornando-se comuns e cotidianos. Nesse sentido, fatos hediondos, quando espetacularizados, tornam-se, para além de toleráveis, rotineiros.

Nota-se, portanto, a necessidade de se repensar a atuação da mídia no noticiamento de violências. Em vista disso, cabe ao Ministério das Comunicações estimular uma maior responsabilidade na veiculação de informações, o que deve acontecer mediante a criação de campanhas e de cursos voltados para os profissionais da área, os quais abordarão os riscos da exposição indevida de determinados conteúdos. Com isso, será evitada a transmissão espetacularizada de notícias, reduzindo tanto o ovacionamento de criminosos quanto a normatização do inaceitável.