Consequências da espetacularização da violência pela mídia brasileira
Enviada em 27/05/2024
Segundo Guy Debord, filósofo francês, um espetáculo pode ser definido pela presença de telespectadores, um meio de propagação e uma atuação, um ‘show’. Embora todos esses elementos integrem uma representação, apenas o último possui papel ativo, enquanto os outros assumem postura passiva diante da montagem. De maneira análoga, ele afirma que diversos setores da sociedade se espetacularizam, por exemplo, a mídia. Tal visão aplica-se, também, a sociedade brasileira, pois possui um público, a audiência brasileira; mecanismos de transmissão, como a televisão; e uma performance: as tragédias.
Diante disso, a trilogia de livros “Jogos Vorazes” ilustra uma sociedade em que, para repressão de ideais revolucionários, o governo cria competições anuais em que jovens lutam até a morte. Essas batalhas, por sua vez, são transmitidas e assistidas por todos por televisões e projeções, o que distancia os atores de seus telespectadores. Apesar de ser uma obra de ficção, representa a relação distante que a massiva quantidade de notícias ruins, propagadas pelos mais diversos meios, possui com a audiência, a levando a assumir uma postura passiva em relação às tragédias.
Assim, tornam-se costumeiras frases semelhantes a “não posso fazer nada sobre isso”, tratando catástofres como algo regular, cotidiano. Similarmente ao que Hannah Arendt propõe ao dizer que a sociedade “banaliza o mal”, normalizando a violência e os desastres, o que gera uma multidão não só incapaz de formular visões críticas, como de assumir posições verdadeiramente ativas em relação às adversidades. Se, por ventura, os papéis de atores e telespectadores venham a se inverter, é imprescindível que a população antes compreenda a relevância de abandonar a passividade de audiência.
Logo, cabe ao Ministério da Comunicação estabelecer mecanismos que incentivem a assunção de uma postura ativa em relação às tragédias, por meio da criação de um órgão que regula a maneira que notícias são passadas em emissoras televisivas. Assim, as catástrofes não estarão mais fadadas a serem meros espetáculos nos olhos dos telespectadores.