Consequências da ocupação urbana desordenada

Enviada em 30/09/2019

No Brasil, em decorrência da falta de criticidade de muitos cidadãos, tornou-se corriqueira a compreensão de que ocupação urbana desordenada não afeta drasticamente a dinâmica atual. No entanto, embora essa perspectiva permaneça no senso comum, naturalizando esse modo de pensar, é preciso notar o quão esse ponto de vista é ingênuo ao possibilitar que o indivíduo se isente da culpa e aponte culpados.

A migração em busca de melhores condições de vida é uma de suas causas. A gentrificação ocorre a partir desse fenômeno. Desastres em encostas e regiões marginalizadas é um dos principais efeitos. Esses entendimentos sobre urbanização desenfreada, mesmo que simplistas, tendem a ressaltar fatores como os dados do IBGE, que indicam que só em Brasília, o número de habitantes passou de milhares para milhões em menos de 50 anos. Em geral, quando a sociedade não se predispõe a assumir posturas críticas e sensatas, toda a atualização de valores fica propensa a exaltar padrões de conduta nocivos e desvirtuados que banalizam tal problema. Como se não bastasse, há de se atentar, também, à forma perniciosa como diversos segmentos sociais se comportam diante desse assunto, ao subestimar a pesquisa da UnB, que mostra que é uma questão que afeta ambientalmente a comunidade ao aumentar as taxas de poluição e de água sem saneamento em áreas periféricas.

Por conta disso, no debate acerca da superlotação em centros urbanos, é preciso enfatizar a urgência do investimento em um maior senso de corresponsabilidade coletiva. Dessarte, em consonância com as ideias da Teoria da Coesão Social, de Durkheim, e do poeta John Donne, não se deve perguntar por quem dobram os sinos, deve-se notar que dobram por todos. Desse modo, é possível evitar a proliferação de posturas meramente acusatórias que, além de desprezarem a atuação pouco eficaz ou inexistente de agentes públicos, também agenciam o aborto de sonhos e o assassinato de esperanças, ao passo que a favelização consequente desse processo aumenta preconceitos e aprofunda o abismo entre os mais ricos e os mais pobres. Sob essa égide, mais do que se eximir da culpa para apontar culpados, os brasileiros devem atentar-se ao seu poder de ingerência e resolução.

Sem dúvidas, quando restrita a fatores inoportunos, qualquer iniciativa contra a ocupação citadina acelerada está fadada ao insucesso. Portanto, faz-se necessário que o Estado, por meio do Ministério das Cidades, garanta uma melhor qualidade de vida em cidades de pequeno e médio porte, ao investir em mais ensino e oportunidades de empregos, além de destinar recursos para a melhoria de transportes, saúde e saneamento básico, o que evita a migração populacional e impede o agravamento da situação. Afinal, parafraseando o filósofo grego Heráclito, a mudança deve ser a base de tudo.